Raios e trovões na Gávea
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A Copa do Botafogo
por Eduardo Zobaran
O Rio nunca viveu tão intensamente uma pré-Libertadores. E quando eu digo pré-Libertadores, não digo esses joguinhos mata-mata que rolam entre o final de janeiro e o início de fevereiro para decidir os últimos integrantes da fase de grupos da Libertadores. Refiro-me ao período do esquenta, quando o repique chama a caixa, o surdo e o tamborim para o ziriguidum, quando a turma se reúne para tomar uns bons drinks antes da night, quando o casal começa… bem, você já entendeu.
E como eu ia dizendo, o Rio nunca viveu tão intensamente uma pré-Libertadores. É um tal de “bora fechar uma tripzinha prum jogo da Liberta em Buenos Aires?”. Outro tal de “pô, se passar para a segunda fase, fecho certo”. E todos esses papos dos torcedores que prometem e quase nunca cumprem viajar com seus times pela América do Sul. Afinal de contas, tirando o ex-goleiro em atividade Fábio Costa, todo mundo tem que trabalhar.
Mas é só nesse terceiro parágrafo que venho realmente introduzir minha ideia. É que enquanto os torcedores de Flamengo, Fluminense e Vasco (menos a Luiza, que está no Canadá) estão num vibe bolivariana, ouvindo Mercedes Sosa, mascando coca e discutindo Carlos Gardel, o botafoguense está tomando uma cachaça, dançando “Ai se eu te pego” e discutindo BBB num boteco sujo em que afoga suas mágoas. Passa mais uma, Manel, que hoje a prova é do líder e eu estou imune!
Nunca antes na história do Carioca alguém entrou com tanta responsabilidade de comprar aquela faixa porpurinada meia-boca de campeão e partir para o Baixo Gávea. Esse é o discurso do bullying que os botafoguenses têm enfrentado, mas precisam ficar bem atentos para não caírem na cilada. Esqueçam o Estadual, a verdadeira missão do Botafogo é a Copa do Brasil (como diz a famosa musiquinha).
Para vencê-la vai ser muito importante ter um time consistente, que saiba passar sem sustos pelos pequenos, que consiga domar os adversários fora de casa e que, no Engenhão, não deixe dúvidas sobre quem está em casa. Mais do que isso, vai precisar vencer o mais recente de seus traumas. Esqueça chororô, tri-vice e rebaixamento. O que ainda faz o torcedor do Botafogo estalar os dedos com sangue nos olhos é aquela Copa do Brasil de 99.
Maldito Juventude, lembram os botafoguenses, que mantém ainda hoje a crença de que aquele título teria feito os últimos anos do Botafogo bem menos nebulosos. Balela. É bem verdade que o Gílson Nunes não merecia a simpatia dos torcedores e que o Márcio Rezende de Freitas, sempre ele, anulou dois gols do Botafogo em Caxias do Sul (nem vou discutir se foram legais), mas o Botafogo não podia decolar com aquela escalação: Wagner, César Prates, Bandoch [“O Bandoch é mau / Pega um, pega geral / Ooooi!], Jorge Luiz e Fábio Augusto (Leandro Eugênio); Reidner, Júnior, Caio [esse] (Rodrigo) e Sérgio Manoel; Bebeto (Felipe) e Zé Carlos.
Um 0 a 0 no último jogo com mais de 100 mil torcedores na história do Maracanã – e isso ninguém mais tira – é a frustração maior de uma geração que viu alguma coisa aqui e outra acolá, mas que tem tido mais alívios do que comemorações nos últimos anos. A Copa do Brasil é um título que Flamengo, Fluminense e Vasco, os três representantes do Rio na Libertadores, já levaram para casa. Estou quase falando que é o torneio mais importante do primeiro semestre para um clube carioca… Mas só quase.
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Paty e Pete na Terra do Nunca
por Raphael Zarko*
( a hipotética conversa entre os presidentes de Flamengo e Fluminense é apenas isso, hipotética)
O telefone tocou. Peter Siemsen tomava aquele cafézinho no escritório quando o telefone tocou novamente. Foi atender, viu número restrito. Pensou que podia ser Thiago Neves e que a ligação, portanto, seria imprevisível. No segundo toque, olhou, e disse: “Se for o Léo Rabello ele vai me encher o saco, vai lembrar que elegeu a mulher…”, e também decidiu que não ia se coçar para atender. Mas, diante da insistência, falou: “Rodrigo, pega esse telefone aí”.
O mais novo funcionário da Unimed, que faz valer cada centavo do seu contrato, colocava açúcar e sucrilhos na mesa de Siemsen quando falou:
- Escritório Danonim Simpson, boa tarde – disse Rodrigo Caetano, o multifuncionário do mês.
- Alô? Danoninho, Simpson? Ô, Shima, que é que é isso? Liguei pro mercado? – falou uma atônita Patrícia Amorim.
Surpreso, Peter engoliu o café, levou a mão à garganta e empostou a voz.
- Presidente do Fluminense falando.
- Oi, Pete, como vai? É a Patrícia.
- Patrícia… Patrícia… ? Ah, ô, Paty, é você, mas quanto tempo, hein. O que você manda?
- Olha, primeiro que prefiria que o senhor me chamasse de Patrícia, até pela liturgia do cargo. Segundo que eu não sou seu amigo Celso para mandar, mas se pudesse mandar alguma coisa, eu te mandaria…
- Opaaa… Pera aí, Patrícia. E eu tenho que te falar também que meu nome é Peter. Peterrr. Não é Pete. Não sou tenista, nem cantora de rock. Peter, que nem aquele da Terra do Nunca, entendeu?
- Terra do nunca? Tudo bem se você prefere ser lembrado assim… Mas, vamos lá, que eu tenho pressa. Olha, estou sentindo uma angústia muito grande nesse caso todo do Thiago Neves, essa confusão, tenho lido muitas coisas e estou me sentindo mal com tudo isso.
- Patrícia, eu posso ver se te ajudo, mas não sou médico. Médico é o Celso, mas ele é pediatra. Achei que quem não queria crescer fosse eu… hehehe.
- Seu tom petulante está me deixando irritada. Eu queria apenas saber por que você está fazendo isso, indo atrás do Thiago Neves desse jeito? Ele é jogador do Flamengo. Você não pode respeitar isso?
- Então você quer mudar o tom, tudo bem. Não sei se você sabe, Patrícia, mas enquanto você nada, nada, nada, eu estudava, estudava e estudava. E se tem uma coisa da qual eu sei é “propriedade industrial”. Inclusive, sou sócio de um escritório de advocacia que tem como especialidade nesse assunto. E o Thiago não é do Flamengo nananinanão. Ele está sem contrato. E atleta sem contrato é que nem bêbada no Big Brother. Você sabe do que estou falando, né?
- Ah, não, nem venha com piadinha sobre isso, porque é coisa muito séria.
- Sobre o quê, o Thiago?
- Não, Peter… Grrrrr…
- A natação, por que eu disse isso de “nada, nada, nada”?
- Você está tentando me irritar, mas sou política, presidente do Flamengo e mulher bem resolvida com marido tricolor. Estou, é claro, falando desse negócio que aconteceu naquela casa do BBB. Que vexame! Não pode, em pleno país que quer receber Copa do Mundo, não é?
- Já que você tocou nesse ponto, vou confessar. Incrível como eles tocam as obras naquela casa de maneira tão rápida. Deveriam colocar aqueles caras para fazer o serviço no Maracanã, no Sambódromo.
- Bela verdade que você disse. Mas tem que pagar bem e em dia, né, Peter.
- Pois é, e é assim que vamos cuidar do Thiago nos próximos anos. Fique tranquila, tá, Patrícia, o seu garoto não vai mais lhe arranjar problemas.
- Tem razão, estou perdendo meu tempo. Faça bom proveito, porque estou fora. Como diria aquele outro: “acabou o dinheiro”. Se alguém perguntar, estamos de mal, ok? Beijo, não me liga nem manda e-mail.
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E o Yougol dá uma de três dedos
Nessa trajetória de mais de três anos (em www.yougol.com.br), já imaginamos o Botafogo de Eike Batista, resgatamos o arqueiro do milésimo gol do rei Pelé, fizemos séries bacanas, como o A a Z do futebol carioca, o ABC do futebol moderno, também comparamos Loco Abreu a Túlio Maravilha e ainda elegemos os craques do Desperdício Futebol Clube. Agora, também no site da Trivela, vamos seguir aprontando de montão, com seriedade e incoerência.
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Aliás, já já no ar a lista dos “10 mais influentes do futebol carioca”.
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Nossos e-mails para contatos, visitas filantrópicas e peladas de fim de ano: eduardozobaran@gmail.com e raphael.zarko@gmail.com
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A Shakira de Santos
por Raphael Zarko
Cesar Menotti surpreendeu e disse que o melhor de todos os tempos foi Pelé. Nada de Maradona, Ronaldo, Messi ou Abelairas. O negão campeão do mundo aos 17 anos, gato ou não, dando balão e pegando de primeira em final de Copa.
É Pelé o primeiro a levantar a bandeira (Ui.) para se defender e lançar mão de números, estatísticas, para não deixar ninguém chegar perto da sua majestade. Nem no Santos nem no mundo. Está sempre com algum “porém” para lembrar quando lhe perguntam se, por exemplo, Messi pode chegar aos pés dele.
- Ele precisa vencer um Mundial pela Argentina – já disse Pelé. Eu acrescentaria: nem gol fez.
Há quem diga que tenho implicância com Messi. Como se isso fosse possível ou produtivo. É impossível. A Pulga já chegou no patamar de Romário, de Maradona, de Pelé, que está acima desses, simplesmente porque não acompanhei a carreira, mas faço questão de respeitar cada história, cada vídeo, cada coisa que li nesse tempo todo. Aliás, foi de uma cafonice maradoniana dizer que não ter visto Pelé não fez falta.
Nesse céu que coloquei apenas quatro, entram ainda, nessa ordem, Zidane e Ronaldo. Difícil deixar o francês abaixo de Maradona, por uma teoria simples que sempre usei: deve ser mais difícil ainda ter jogado mais que o Zidane.
E pegue a lista dos vencedores do prêmio da Fifa. Quem mais entra nesse grupo topo do topo? Cristiano Ronaldo não. Canavarro, nem pensar (sou mais Gamarra). Kaká, para mim, até chegaria perto, mas agora está difícil defendê-lo. Tem o Ronaldinho Gaúcho, claro, que era para ser o Messi do momento, mas preferiu, sei lá, um ensaio de escola de samba.
No pelotão que entra Kaká e R10, coloco Rivaldo, um grande craque, mas não tão genial e constante como muitos hoje insistem me dizer que era. Aqui, também entra Roberto Baggio e Stoitchkov, dois cracaços, um com muita técnica e pouca força, outro de muita força e muita técnica.
Figo, Bola de Ouro de 2000, é o mais limitado desta lista que estou citando. É do grupo de Shevchenko (2004), um grande goleador, craque de fazer gols, mas de outra estirpe.
Estirpe – adoro essa palavra – na qual não entra Marco Van Basten, outro genial, imprevisível, técnico, hábil, veloz. Da combinação que resulta em craque no ataque, sem dúvida.
Mais abaixo ainda, tem Weah, o Edílson da África, mais parrudo e menos hábil. Em outro estilo, Matthaus, líder da Alemanha na Copa de 1990, jogador histórico, não só pelos recordes, e Mathias Sammer, líbero sensacional também, são dos melhores que vi jogar.
E onde entra Neymar nisso tudo? Bem, para mim, está no processo – muito veloz – de entrar logo saltando vários andares e estacionar no nível lá de cima, do Messi e companhia. Mas por enquanto chama mais a atenção pelo visual, tal qual uma Shakira de vermelho decotado.
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O Santo sai de cena
por Claudio RK*
Havia quase 23 anos que eu não chorava por causa de futebol. A última e única vez fora uma derrota doída para o Bragantino que eliminou o até então invicto Palmeiras no Paulistão, manteve uma fila de até ali 13 anos, e fez o garoto de 11 ter certeza que não veria seu time ser campeão. Depois disso, sobrevivi a derrotas, vexames e rebaixamento. Mas não resisti à aposentadoria do maior arqueiro da história do clube, do país, do futebol (e quem há de me provar errado?).
Claro que todos sabíamos que a hora estava chegando – na verdade, eu até gostaria que ele tivesse parado antes, pois era cada vez mais raro vê-lo em campo e não havia necessidade do risco de ele se arrastar em campo. Mas como não se emocionar se o que de melhor que havia no Palmeiras acaba de se despedir? Se ele nos remetia a um passado brilhante – afinal, ainda somos muito mais do que derrotas, vexames e rebaixamento – fato é que a partir de agora este passado parece remoto, quase inatingível. Marcos, mais que craque, era um símbolo, aquele jogador que entrava no gramado carregando sozinho a bela história do Alviverde Imponente que hoje diretores e elenco se esforçam para ofuscar. Percebo agora o quanto significa esta saída de cena: além de ser o atleta mais boa-praça, vitorioso, longevo e talentoso do grupo, é o elo com as boas lembranças. Agora, sobra apenas a perspectiva de tempos ainda mais sombrios. Mas esqueçamos isso agora, que o homenageado não merece.
Marcos Roberto Silveira Reis jogou toda sua carreira profissional no Palmeiras, mas não começou na base verde, e sim em Lençóis Paulista, cidade a 173 km de sua Oriente natal. Despojada como ele mesmo sempre seria, diz a lenda (na qual acredito) que ele chegou ao Verdão em troca de 12 pares de chuteiras – antes disso, ele foi reprovado num teste no Corinthians, que, alguns dizem, era seu time de infância. Convenhamos: ainda que verdade, isso não mudaria nada.
De forma algo profética, Marcos debutou no Palmeiras em um amistoso em Guaratinguetá, em maio de 1992: a terra de Frei Galvão, único santo nascido no Brasil, foi também a que viu a estreia daquele que seria esportivamente glorificado sete anos depois.
Antes de chegarmos ao milagre, porém, vale lembrar que Marcos já tirava seus coelhos da cartola: em 1996, substituiu Velloso, lesionado, por algumas partidas, e foi tão bem que Zagallo o convocou para a Seleção. Ainda assim, seu preparador Valdir de Moraes, outro mito da meta alviverde, o recolocou no banco após a volta do titular. Marcos assentiu sem causar problemas, e por mais três anos teria apenas aparições esporádicas.
Enfim, chegou 1999, e uma nova lesão do também excelente Velloso deu a oportunidade que Marcos agarraria para sempre. Com apenas 50 jogos no lombo, o camisa 12 voltou à meta, mas sua carreira poderia ter ido para o buraco poucas semanas depois: em São Januário, na volta das oitavas-de-final, Marcos falhou logo aos dois minutos. Por sorte, o arqueiro cruz-maltino Márcio estava num dia ainda mais infeliz, e uma partida inspirada do Palmeiras resultou na classificação para enfrentar seu maior rival, quando o curso da história mudaria para sempre.
Cinco de maio de mil novecentos e noventa e nove: numa partida simplesmente perfeita, a maior exibição de um goleiro que eu vi e vou ver, o Palmeiras (10 chutes a gol) faz 2; o Corinthians (30 chutes), nenhum. Naquela noite, surgiu a alcunha que lhe acompanhará por todo o sempre. Não se tratava mais de um mortal, ele já era São Marcos.
Na semana seguinte, novo bombardeio alvinegro, mas desta vez duas passaram. Tanto melhor: na disputa de pênaltis, o santo pegaria a cobrança de Vampeta e cumpria mais um passo no ritual de canonização (sim, sei que a canonização precede a santificação e que portanto algo parece ilógico, mas eis aí os milagres que só os verdadeiros santos podem proporcionar).
Marcos seguiu sua senda de milagres em Buenos Aires, Cali e São Paulo. No fim, a América seria verde e o Toyota para o melhor atleta da competição seguiria para o interior paulista. Mas não deu tempo para curtir: o goleiro retomava seu caminho na Seleção, sendo reserva na conquista da Copa América. Ele também participou do triunfo na Copa das Confederações em 2005 e, casualmente, esteve na meta brasileira naquela noite de 2002 em Yokohama em que se inaugurou a tradição do papel prateado. Mas isso foi tudo que os palmeirenses, ciosos e ciumentos de seu estandarte, concederam aos demais brasileiros.
Naquele mesmo ano, apesar do epíteto Marcos foi apresentado ao inferno. Ele, porém, não estaria em campo no fatídico dia em que o Palmeiras, qual o gigante do pé de feijão, caiu. Já então ele começara a ter as lesões que marcariam sua década – e que o afetaram durante a Copa do Mundo, ainda que ele não tivesse dito palavra sobre o assunto.
Marcos teve proposta milionária do Arsenal no início de 2003. Com a fama de campeão da América e do Mundo, poderia ter saído do Palmeiras sem ser necessariamente acusado de pular fora do barco. Mas seguiu, caipira, adorado e feliz, como seria até o fim.
Novamente, e como seria tão tristemente habitual, conviveu com afastamentos, fisioterapias, tratamentos e que tais. Mas estava em campo nos dois momentos mais marcantes daquele ano: na vexatória goleada por 2 a 7 para o Vitória, que marcou o fundo do fundo poço, furou sem querer
querendo a bola que, limpa, converteu-se no derradeiro tento baiano. E, “num pasto à luz dos vaga-lumes”, como ele mesmo dissera antes da partida que trouxe o Verdão de volta à Série A, enfrentou o Sport em Garanhuns. Pouco antes, uma atuação sua no quadrangular decisivo foi fundamental: guardo com carinho sua estupenda partida em Marília, tão pertinho de sua casa, um 2 a 0 em que o Palmeiras sofreu, mas deu um passo gigantesco para o retorno. Não encontrei vídeo dessa partida na rede, o que me deixa até mais feliz: a memória daquele jogo parece ser minha e de mais ninguém.
Passaram-se cinco anos, incontáveis lesões e um título paulista, até sua talvez última atuação inesquecível: pela Libertadores de 2009, novamente contra o Sport, ele foi impressionante, culminando na defesa de três pênaltis. Àquela altura, Marcos acumulara suas falhas e frangos, como todo goleiro que se preze, mas também entrevistas exageradas, subidas desesperadas ao ataque e desabafos incontidos. Sua sinceridade cortante foi muitas vezes comprometedora.
Afinal, ele se tornara um torcedor palmeirense dentro de campo, com tudo o que isso tinha de bom e de ruim.
E, no ano passado, nos estertores da carreira, apareceu a última de suas faces: enfim maduro, manteve o bom humor mesmo nas adversidades – embora, após seu mico final, os zero a seis em Curitiba, ele não tenha se contido no final da entrevista. Sua última aparição (lá estou eu indo às lágrimas de novo…) foi em Florianópolis, num 1 a 1 besta de um campeonato besta, ao menos para os palmeirenses. Que Batista, o volante que passou pelo Botafogo, desfrute a honra de ter sido o jogador a bater Marcos peladerradeira vez.
Depois desse jogo, mais uma vez o camisa 12 se afastou lesionado, desta vez imergindo em total silêncio. Ventilou-se a possibilidade de atuar no Derby da última rodada – sem que ele fizesse qualquer menção a isso – mas era evidentemente um boato. Ainda assim, por mais que parecesse claro, não esperávamos que, de uma hora para outra, ficássemos órfãos do último verdadeiro ídolo forjado na Rua Turiassu. E, nesses tempos em que jogadores passam por três ou quatro times em uma temporada, quando veremos novamente alguém que dedica 20 anos e 530 partidas de sua vida ao nosso clube?
Marcos seguirá ligado ao Palmeiras, pois terá um cargo na comissão técnica. Ganhará seu busto no Palestra, feito que até hoje só três ex-jogadores conseguiram. Terá uma vida normal, com família e sem dores e enfim poderá desfrutar o que tão merecidamente conquistou.
Para a torcida, é um momento muito triste. A linda década de 90 chega enfim a seu ponto final no adeus de um de nossos grandes. Que, do alto de sua grandeza e caráter, foi e é querido, respeitado e admirado até pelos adversários.
O futuro chegará com seus novos heróis. Mas Santo, só haverá um.
* Claudio é palmeirense e conseguiu fazer até o São Marcos escrever RK num papelzinho de autógrafo.
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Pelo menos terei aprendido
pelo neto da dona Edith
Minha vó sim que merecia chegar a 2014 e completar 100 anos durante a Copa do Mundo. Embora tenha sido mulher (naquela época se dizia só esposa mesmo, acredito) de deputado baiano, dono de fazenda de cacau, que colocou dedo na cara de um pirralhinho que era o ACM na época, ela se deu ao luxo de não ver a Copa que outro centenário verá.
Minha vó (junto com a minha mãe, embora essa tenha virado café com leite) era a flamenguista que não me dava problema. Torcia lá na dela, me via sofrendo pelo Vasco, viu a gente perder o Mundial para o Real Madrid, ficou preocupada com meu estado de sanidade, mas quando tudo estava calmo, dizia: “Eu sou Fla-men-go”. E eu ria.
Minha vó torceu para o Guga comigo, para o Romário, não gostava do Lula, gostava do Fernando Henrique, passou a gostar do Lula, gostava da Dilma, gostava da Xuxa, gostava de ver futebol, do Flamengo e lembrava que tinha um jogador do Vasco “lindooo, um pão”. Era o Bellini, o bonitão que deixava as mulheres à la estátua no Maracanã.
Minha vó perguntava se Romário deu gol, se Ronaldo deu gol. O Flamengo está fraquinho, não vai ganhar, não vai dar gol. Só ela, que nunca chamei de senhora, porque “você” é o maior carinho desse planeta, que falava que tal jogador “deu gol”. A baianidade mais fofa, os bracinhos colados ao corpo gordinho, um remelexo de vovó, um encanto de pessoa, uma alegria de vida, uma Edith para Piaf nenhuma botar defeito.
Minha vó que não via problema em muita coisa, que unia toda uma família, que cativava tanto, que amava tanto, que beijava tanto, que mandava beijo por aviãozinho, que pedia para parar de beijar (“um é pouco, dois é bom, três é demais. Chega”), que pedia muito pouco. E dava carinho, dava sorriso, provocava risos, provocava os netos vascaínos, os filhos vascaínos. E até o marido, meu vô Osvaldo, um botafoguense.
Minha vó fez 97 anos, sete meses e treze dias. Nunca alguém riu tanto. Da vida, da sorte, do azar. Foi que nem um anjo. Como no poema que sabia de cor, era “A orgulhosa” mais rica, a diva que fez eu e meu irmão só nos cumprimentarmos até hoje com a saudação “Êla”, que nunca teve qualquer explicação.
Trecho de “A orgulhosa”
Agora sim, já é tempo
De te dizer quem sou eu,
Um moço de vinte anos
Que se orgulha em ser plebeu,
Um lutador que não cansa,
Que ainda tem esperança
De ser mais do que hoje é,
Lutando pelo direito,
Pra esmagar o preconceito
Da fidalguia sem fé!
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Sete Lagoas de lama
por Leon Corrêa*

A vida não é feita apenas de vitórias, viradas épicas e títulos, ao contrário do que supõem os recentes textos deste conceituado blog, o yougol®. Pois é, leitor amigo, pra variar fui teimoso, desafiei a lógica e peguei um ônibus rumo à Belo Horizonte no último sábado. Objetivo: ver o Botafogo em ação na Arena do Jacaré contra o simpático cliente Atlético-MG, no qual batemos três vezes ao longo da temporada. Vai, pode me chamar de maluco… estou mais do que acostumado. Mas antes que me chame também de pé-frio, uma estatística: Minha última derrota como visitante havia sido em 2006, um 3 a 2 contra as marias no Mineirão. Entre aquele jogo e este foram nove vitórias (duas delas relatadas aqui e aqui) e dois empates em viagem.
Vamos lá: Eu funciono ao contrário de 99% (ou mais) dos torcedores. As pessoas tendem a se motivar para ir ao estádio (quem o tem) ou viajar na medida em que o time ganha. Se o time empata e perde, deixam de ir e ficam na internet reclamando, como se fosse adiantar. Todos, rigorosamente, todos os times tiveram um mau momento no campeonato. Só que o Botafogo deixou esse mau momento para a pior hora: o fim da competição. O título que parecia próximo se foi. A oportunidade de voltar à Libertadores vai pelo mesmo caminho. Depois de seis derrotas nos últimos sete jogos, só os loucos sobrevivem e continuam a apoiar e lutar. É a minha motivação: contrariar o pensamento único que tentam nos enfiar goela abaixo.
Imaginando ou antevendo o pior no domingo, aproveitei bem o sábado na capital mineira, comendo, bebendo e revendo/fazendo novas amizades, vamos por assim dizer. À noite cheguei ao tal do Granfino para ver mais um show fantástico do Mundo Livre S/A, um dos meus conjuntos musicais favoritos, um quinteto de craques da música brasileira. O líder, Fred 04, estava eufórico com a camisa do Sport, primeiro, único, verdadeiro & legítimo campeão brasileiro de 1987. Mais cedo, os pernambucanos haviam vencido o Vila Nova e garantido o retorno à Série A. Que sejam bem-vindos. Bem melhor um nordestino honesto do que mais um paulista inexpressivo…
Uma noite longa para uma vida curta… Chega o domingão. Hora do jogo se aproxima. Antes de embarcar em mais um cata-corno, um giro pelo Mercado Central. Segui a indicação do Cavalieri e fui atrás do Bar da Lora. Infelizmente ela não estava lá. Como não sou chegado em jiló, quiabo, pepino e outros vegetais de duplo sentido, fui num sandubão de contra-filé. Muito, mas muito bom. E a preço justo. Vale a pena conferir. Também vale o registro: de cada dez pessoas que vi na rua com camisa de clube, sete eram atleticanos empolgados. Dois eram velhinhos com a camisa do América. E havia uma baranga triste de azul.
Sete Lagoas está para Belo Horizonte como Petrópolis está para o Rio, ou seja: é perto mas não muito. Se algum dia, você vascaíno, triCoflor ou burronegro quiser fazer aventura semelhante, recomendo enfaticamente evitar os ônibus da Setelagoano: Uma viagem que poderia ser feita em uma hora levou mais que o dobro. O motorista não passa de 50km/h e pára em todos os lugares possíveis e imagináveis. E não é para pegar passageiros. Mas para conversar com transeuntes, comer, tomar café, comprar capa de chuva, etc. Chegando à rodoviária, ainda se faz necessário pegar mais um microônibus, entupido de atleticanos, claro, que sacolejou por mais meia hora até chegar aos arredores do estádio.
Ao saltar do ônibus é que entendi porque os mineiros vão tão mal no campeonato brasileiro. Ficou fácil compreender porque o Mineirão fez e vai lhes fazer tanta falta nas próximas duas temporadas. Mais fácil ainda entender porque os clássicos não podem ter a presença das duas torcidas em nenhuma hipótese. Apenas uma via, de mão-dupla, leva à Arena. Quando o jogo envolver torcidas que têm alguma rivalidade, o confronto não é uma possibilidade, mas uma certeza, já que até tem polícia, mas num contingente bem reduzido para um local que pode receber até 20 mil pessoas. A cidade pode ser simpática (não tive tempo para avaliar), mas o estádio e a estrutura em torno dele são uma porcaria.
Precavido e acostumado a perrengues como sou, fui disfarçado, deixando a estrela aparecer apenas dentro da arena. Antes de chegar ao portão cinco, destinado ao visitante, é necessário cruzar um mar de lama (estava chovendo, o que significa dizer que num dia de sol é nuvem de terra batida e poeira). Seria ótimo se estivesse indo ver um rali ou rodeio, não para um estádio de futebol. Sem falar que no caminho é necessário passar por TODOS os portões de entrada do mandante. Um desavisado ou desaforado que tentar fazer o mesmo com uma camisa de clube/torcida adversária simplesmente não chega nem na porta. Até porque não há qualquer sinalização que indique para onde se deve ir. Todas as informações que eu tinha foram pesquisadas antes da viagem…

Para não dizer que absolutamente tudo deu errado, pelo menos a área que nos foi destinada permitia boa visão do campo. Pelo que vi em outros jogos, o visitante ficava no canto à direita das cabines, atrás do gol, de onde pouco ou nada se vê. Felizmente mudaram isso. Aqui cabe um registro sobre as torcidas: a maior, dissidente da força jovem do WascO que diz que faz e acontece, não apareceu. A combalida tjb também não. Quem representou de verdade foi a boa Botachopp e os abnegados da FogoHorizonte, que gentilmente me deram um alívio na forma de uma carona e boas histórias de luta na volta para BH. Aliás, outro motivo para sentir saudade do Mineirão: o tropeirão servido no bar custa o dobro do preço e não tem a metade da qualidade…
Em campo, apenas Jefferson, Maicosuel e Lucas se salvam, muito mais pela vontade do que pela técnica. Até Abreu se perdeu e chutou um pênalti nas nuvens. Mas ele tem crédito. Eterno. fábio ferreira, éverton e depois mulassandro são um desastre. Sempre. Mas têm padrinho forte e, pasmem os senhores, renovação de contrato já engatilhada para 2012!. Os outros não fedem nem cheiram, parecem alheios ao jogo, correm pra não chegar, não ganham uma dividida, erram passes de dois metros, fazem faltas desnecessárias…
No segundo tempo, o que se viu foi um time totalmente entregue, sem jogada, sem tática, sem disposição, olhando o pra lá de limitado time do Galo deitar e rolar. Com isso, um pequeno grupo cansado da estrada, da chuva e da incompetência se virou e começou a dirigir impropérios aos dois suínos que estavam no conforto do camarote e são os verdadeiros culpados pela má fase do time e do clube. Um deles, com aquele sorriso safado de canto de boca, mostra o dedo médio para um torcedor (sorte dele que não foi pra mim…) e depois faz o “V” de vitória (o time já apanhava de três a zero, mas ele se referia à “vitória” na eleição, na sexta). Ainda periga a sempre competente assessoria de imprensa & marketingue soltar um comunicado dizendo que nada disso aconteceu…

O sinal significa o seguinte: nos próximos três anos, a filosofia atual vai permanecer: topa tudo por pouco dinheiro, pinta o estádio com a cor do rival, mancha a camisa com anúncios com a cor do rival, contrata técnico fracassado & incompetente, contrata jogador inexpressivo & desinteressado e não está nem aí para o sofrimento e chacota que o torcedor passa.
Outro retrato lamentável no fim da partida. Um coleguinha obscuro da frapress ria sem nem disfarçar e mexia os braços, meio que dizendo: “Agora acabou de vez, esses merdas foram eliminados”. Torço muito para que o Botafogo não acabe, para que esse sujeito possa continuar a ter um emprego e conseguir se sustentar por um bom tempo.
Adendo: Não se deixe enganar! A frapress diz que o Engenhão é “a nova praça do futebol carioca”. Mentira. O Engenhão não é o Maracanã, é o estádio do BOTAFOGO. A dupla sem-teto fra-flor não joga “em casa”. Eles NÃO têm casa. O WascO até tem, mas não pode jogar partidas importantes nela. De que adianta? Na volta ao Rio, descobri que a ccbff (co-confoderação chorinthians-brazil-framengo de futebol) nos puniu e nos arrancou o mando de campo contra o florninguémC. Sem qualquer justificativa plausível, até porque não existe uma. Aceitar derrotas dentro do campo, por mais desagradável que seja, é necessário porque faz parte do jogo. Agora aceitar que nos condenem, nos tirem do nosso estádio, para entrega-lo aos sem-teto (o vice e o time DANAÇÃO que, pelo investimento e apoio oficial que recebe, devia se envergonhar por ficar em quarto) é uma humilhação inadmissível.
Enquanto essa (indi)gestão calamitosa, especialista em multplicar dívidas e subtrair conquistas, continuar afundando e desmoralizando o Botafogo, vou cancelar o plano de sócio-torcedor, da mesma forma que jamais assinei ppv. Não sei como vou me acostumar com isso, mas até 2014 vou ser ainda mais antiquado e me limitar ao bom radinho de uma pilha só. Xingar jogador e técnico não adianta, a culpa de serem ruins e estarem lá não é deles. Nunca vou deixar de amar o clube da Estrela Solitária, mas como só pensam em dinheiro, o meu que é pouco e suado não vai mais para o bolso deles. Sou doido, sou apaixonado, mas não aceito que me façam de idiota. De nada adianta eu fazer minha parte, a qual faço regularmente desde 1994, se quem ganha muito para fazer a contrapartida pouco ou nada faz. Como diz o outro, você pode ficar com todos os títulos. Eu fico aqui com meu amor. E pensar que tinha gente que reclamava do Bebeto…
Por essas e por muitas outras, fico por aqui, pedindo desculpas pelo mau humor (ponha-se no meu lugar, você também estaria cheio de ódio!) e desejando um 2012 de muito sucesso e saúde ao amigo leitor do Yougol®.

* Leon Corrêa é botafoguense, jornalista, gosta muito de Minas e o que lá tem de melhor: as mineiras
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