Decreto 30.417 e o sóbrio futebol carioca

por Eduardo Zobaran

Ainda estava num momento acordado-acordando da minha sexta-feira quando o telefone tocou. Era a minha mãe perguntando futilidades. Logo em seguida, o telefone tocou novamente (“fui atender e não era o meu amor”). Do outro lado da linha, um amigo pinguço e vascaíno – e não era o Zarko, hein! – me dando a mais cruel das notícias do dia, quiçá do ano. Trata-se do decreto 30.417: não satisfeitos em nos iludir com cerveja sem álcool dentro dos estádios, agora a proibição de venda e consumo de bebidas alcoólicas se estende para o entorno do Maracanã, em diversas ruas da região.

Foi um choque e tanto. A primeira reação é claro foi de dor. Tomam-nos a cerveja sem nenhum pudor e ainda justificam isso como sendo uma medida para combater a violência. Ainda estou para ver uma briga em estádio de futebol acontecer por excesso de bebida. No máximo discussões tão corriqueiras quanto as que vemos nas praias e esquinas da cidade. Sem dúvida, bem menos do que vemos nas nights da vida.

Minha reação seguinte foi mesquinha ao extremo. Logo pensei: que beleza, é só no Maracanã que está valendo. Mas infelizmente, mais cedo ou mais tarde vai aparecer algum gênio com a idéia de fazer o mesmo nos arredores do Engenhão, de São Januário e de todos os outros estádios dos pequenos. Nesse jogo quem perde são os comerciantes da região, o torcedor e, é claro, qualquer tentativa de organizar o futebol carioca.

Explico. O primeiro é bem óbvio: sem consumo de álcool, sem din-din para donos de bar da região. Para os torcedores, trata-se de um choque. Não de ordem, mas de cultura. A partir de agora, descobrimos que beber e assistir futebol é ilegal. Todo esse tempo estávamos enganados, assistindo da forma incorreta o “espetáculo”. Por último, o tiro no pé.

Quando se fala em compreender o futebol como um negócio, como uma indústria, não estamos apenas mencionando o fato de jogadores, como o Kaká, despertarem o coração e a carteira de bilionários das mais inusitadas origens. Trata-se de gerir elementos do esporte como um negócio que busca o lucro ou, pelo menos, ser viável economicamente. Assim, o torcedor (o que vai ou não ao estádio) é o consumidor final, é quem paga o show.

Pois no Brasil e, mais especificamente no Rio de Janeiro, a proximidade da Copa do Mundo não nos abriu os olhos para o mais óbvio: o consumidor deve ser respeitado. O que se faz é exatamente o oposto. Além de ser enxotado em filas, enquanto cambistas armam esquemas para meter a mão nos ingressos, são desrespeitados do início ao fim pela polícia. Ainda por cima não recebem condições nem para uma visitinha ao banheiro no intervalo (quem conhece sabe o perrengue). Por aqui, a experiência do match day não passa de balela.

No Rio de Janeiro, os torcedores são obrigados a fazer hora no lado de fora. Lá dentro, não há nada para consumir. O cachorro-quente é seco e sem gosto. O refrigerante é caro. Um amendoim não é o suficiente. E não há mais nada. Sim, havia cerveja, mas já não mais. E isso tudo porque os clubes buscam desesperadamente novas receitas. Será que não percebem que os consumidores estão sedentos por produtos que não são oferecidos? Um dos que despertava maior sucesso – e, provavelemente, motivava a ida de muitos – foi retirada do cardápio. Agora, será banida até dos arredores.

Trata-se de uma criminalização da cultura do futebol, do torcedor de futebol, da cultura da arquibancada. Só nos querem se formos obedientes, sem faixa, sem bandeira, sem grito, sem uniforme, sem batuque, sem conforto, sem respeito, sem meia-entrada, sem cerveja. Nem sei se realmente nos querem. Às vezes penso que não. Em outras, tenho certeza.

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Não fui o primeiro a escrever sobre o assunto. Por acaso havia lido hoje esse texto do Milton Ribeiro sobre a diferença entre assistir o jogo no estádio ou pela TV. Nesse outro aqui, do Tribuneiros, já há a repercussão. Assino em baixo qualquer um dos dois.

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Mais um adendo: esse artigo acadêmico de 1996 sobre futebol e álcool publicado pelo Social Issues Research Center. Nele, Doutor Peter Marsh, do The Amsterdam Group, analisa o comportamento do torcedor europeu. Vale lembrar que a proibição de álcool já caiu na Inglaterra há algum tempo. E também vale lembrar que o futebol inglês é o que melhor se adaptou à indústria do futebol. Lá o problema do álcool é grave, mas na Itália não é visto como um problema. Para os italianos, bem mais parecidos conosco, o problema é social, não se resolve fechando a serpentina.

4 Comentários

Arquivado em Conceituando o futebol

4 respostas para Decreto 30.417 e o sóbrio futebol carioca

  1. Osmar

    Assino em baixo, faço de suas palavras a minha. Vai falar Bunito assim na PQP!

  2. Osmar

    Assino em baixo, faço de suas palavras a minha. Vai falar Bunito assim na PQP!

  3. João Carlos

    Por isso esse é o melhor blog de futebol do Brasil. Os blogueiros além dos escreverem ótimos textos e terem opiniões embasadas, são também cachaceiros de referência.

    “É por isso que eu canto que eu visto esse manto…orgulho ser tricolor ôôôôô”

  4. Kadu Campos

    O que mais me chateia não é não poder beber no estádio (consigo sobreviver a isso), é não poder nem consumir uma cervejinha em um calor insuportável antes de entrar (só pode 2 horas antes e duas depois).

    Parece-me até a ditadura me proibindo de portar uma lata de cerveja nas proximidades do Maraca.
    O que mais me revolta é ver a SEOP, guarda municipal e PM totalmente apáticos a venda indiscriminada de ingressos por cambistas.
    Enfrento 4 horas de fila para adquirir o ingresso como manda o figurino, e na saída do metrô tem um punhado de cambistas gritando como loucos, para se desfazer de suas entradas a preços q chegam ao dobro, com policiais a 50 metros fazendo cara de paisagem.
    Ordem (ou desordem) pública? Pra que criar lei se não fazem valer as q já existem???
    Estão estragando o espetáculo.

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