Naquele 21 de junho

por Eduardo Zobaran

Este post faz parte de um cojunto de textos de blogueiros botafoguenses para celebrar os 20 anos do título de 1989. Mais em botafogo1989.wordpress.com.


As férias escolares de junho sempre significaram longa temporada em Itaipava, na região serrana do Rio, onde meus avós moravam entre montanhas e na mais absoluta tranquilidade. Em uma noite dessas, de frio, mingau e lareira, me sentei com meus avós em frente à tevê para assistir ao jogo, o jogo. Era 21 de junho de 1989 e eu não fazia ideia de como a data mudaria minha vida.

No início daquela noite, eu era o feliz torcedor de um certo clube de três cores. Do alto dos meus recém-completos cinco anos, não havia muito o que decidir, principalmente quando a referência paterna torce – e de verdade, ainda que sem motivos – para o tal clube das Laranjeiras. Não havia, portanto, nada em jogo quando Botafogo e Flamengo entraram em campo, no Maracanã. Nada, é claro, além de um tabu de 21 anos sem títulos do alvinegro.

A perfeita combinação de cruzamento na medida e mandinga bem feita

A perfeita combinação de cruzamento na medida e mandinga bem feita

A bola rolou e a minha avó, recordo, iniciou um doentio ritual de superstição, angústia e euforia. Meu avô, com a tranquilidade dos vascaínos, torcia – é evidente – contra o Flamengo e tudo mais que vestisse preto e vermelho. A cada ataque do Botafogo ele fazia figa, mãos para o alto com os punhos cerrados. Minha avó, inquieta, sentava-se na beirada esquerda do sofá à esquerda da lareira. Olhos atentos a cada lance e dedos preocupados em manusear cigarro e isqueiro.

A medida que o jogo passava, o tal ritual se tornava cada vez mais tenso e minucioso, como se  em Itaipava estivesse a chave para o sucesso no Maracanã. Não importava se era perfeito o cruzamento de Mazolinha ou a conclusão – e o empurrão – de Maurício. Se algum detalhe da rotina supersticiosa fosse alterada, o gol jamais sairia. (Talvez tenha sido o longo jejum que tenha lapidado as mandingas.) Percebi, então, que existia, sim, algo em jogo. Estavam em jogo todas as angústias, todas as esperanças e todas as desilusões do últimos 21 anos vividos pela minha avó. Ela entrou no jogo, e eu resolvi torcer por ela.

20 anos dos 20 anos sem título

20 anos dos 20 anos sem título

Sem saber o que fazer, ouvi a narração e as lamentações, sem muito o que acrescentar. Em um certo momento, silêncio. Calma, calma. É gol. É gol. É. Gritaria, abraço e alegria que jamais vou esquecer. A partir daquele momento, até o apito final, fui bombardeado com informações que fizeram ainda mais rica aquela nervosa e festiva noite de quarta-feira.

Aquele time ali, o de preto e branco, já teve um jogador que tinha perna torta e que antes mesmo de driblar, o estádio já gritava olé. Aquele time ali, o de preto e branco, já teve um jogador que de tão bom ficou conhecido como enciclopédia. Aquele time ali, o de preto e branco, já teve um cachorrinho que quando entrava em campo o time não perdia. É o Botafogo, era o time do seu bisavô. Vou te dar uma camisa do Botafogo, você quer?

É lógico que eu queria. Naquele 21 de junho de 1989, aprendi o que é o futebol e todo a confusão de emoções que nos faz gostar cada dia mais, não só do futebol, mas do time que escolhemos um dia seguir para sempre. Foi naquele 21 de junho de 1989 que resolvi que o meu time seria o Botafogo. Isso foi há 20 anos e, nunca é demais lembrar, foi a decisão mais acertada da minha vida.

5 Comentários

Arquivado em Memórias

5 respostas para Naquele 21 de junho

  1. Pingback: As outras versões de 89 « Botafogo 1989

  2. Pô, muito legal o post coletivo, Eduardo. Sou vascaíno, mas, como bom amante do futebol carioca, também sou fã desse gol do Maurício. Pelo que amigos botafoguenses sempre comentam nas conversas, foi um dos momentos mais marcantes da história do Glorioso, sem dúvida.

    Como dito em praticamente todos os textos que participaram da blogagem alvinegra, a conjuntura do momento e da fase difícil que o Botafogo atravessava à época deu todo um caráter épico àquela grande conquista sobre o Fla.

    Parabéns pela sacada de reunir outros botafoguenses em torno da data. Rola de fazer uma versão com o título de 95 também.

    Abraços!

  3. rafael botafoguense

    porra que irado!!! ainda não tinha lido esse texto,fodão mesmo.Tava pensando em qual jogo do botafogo baixar primeiro,agora vai ser esse dai,na moral queria ter nascido antes pra ver esse jogo,sofrer e depois comemorar a vitória deve ter sido mto show!!!!!

    É BOTAFOGOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. rafael botafoguense

    Botafogo de Futebol e Regatas!

    Clube secular,que destila honra,fibra e honestidade pelas relvas ou várzeas do football. Que atravessa a linha do tempo do balompié com uma imortalidade peculiar de saltar os olhos e encher o coração de orgulho.

    Obrigado Luiz Caldas! Seria apenas mais um revoltoso a morrer,mas antes disso idealizaste o Grupo de Regatas Botafogo que viria se tornar o Club de Regatas Botafogo que com sua imortal e mística estrela solitária,tornou o botafogo um clube supremo místicamente falando.

    Suas baleeiras portentosas e galhardas flutuavam sobre a baía de guanabara de forma altaneira e garbosa…sendo campeões…sendo Botafogo!

    Obrigado, Flávio Ramos! Obrigado por criar este club de maneira tão humildemente épica. Obrigado por não se deixar levar pelo tricolismo iminente naquela época e decidir pelo novo,pelo próprio,pelo BOTAFOGO.

    O Botafogo Football Club…campeão de 1907*,Glorioso de 1910,clube que em 1911 demonstrou abnegação e caráter infindável,clube supremo do balompié carioca na década de 1930.

    Ambos se fundiram,uniram seus brasões e suas histórias,já ricas e gloriosas. Daí, seguiu teu caminho,sempre botafogueando pelos campos e pradarias desta terra. Dentre elas,a de 1989,eu não vivi,mas está na minha alma.

    oh botafogo…velho caminhador do football mundial, como é apaixonante e glorificante ser um hincha de sua bandeira. poder olhar para o peito,mirar a insígnia solitária e gloriosa, e se sentir campeão. Poder ser botafoguense!

    Obrigado por ser botafogo,Botafogo. E isso sempre foi o bastante.

    SIGAMOS ALVINEGROS! SIGAMOS! SIGAMOS CAMINHANDO COM A ESTRELA INCRUSTADA NO CORAÇÃO,BRADANDO VOSSO HINO PELOS QUATRO CANTOS !!!! POIS SOMOS GLORIOSOS,SOMOS ESTERNOS CARAJO!!

    *verdadeiro campeão de 1907! O clube de garotos que logo no segundo campeonato se tornam campeões cariocas de football…esse é o glorioso! que ainda nem era alcunhado desta forma. Mas já mostrava que a vocação para as glórias já estava cravada em suas entranhas.

  5. Pingback: Fenway Park, meu São Janú gringo ExtraTime

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s