O esporte e a sociedade: sobre mulheres e twittadas

por Eduardo Zobaran

Abro o jornal, ligo a televisão, ouço o rádio e tudo que eu vejo são informações sobre uma resistência orquestrada através de novas mídias sociais presentes na internet, do Twitter ao Youtube. Nunca se falou tanto sobre o poder delas em um ambiente político revolucionário quanto nas recentes manifestações de apoio ao líder da oposição iraniana, Mir Houssei Moussavi, derrotado de forma polêmica nas urnas pelo, agora reeleito, presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Poucos se lembram, no entanto, que o esporte já exerceu uma resistência parecida. Se, hoje, o maior espanto é que a população iraniana enfrenta o poder vigente para protestar em público, em novembro de 1997, era o futebol que demonstrava sua capacidade transgressora no movimento que ficou conhecido como a Revolução do Futebol. À época, o Irã havia garantido em Melbourne, contra a Austrália, a classificação para a Copa do Mundo da França – onde jogaria e venceria por 2 a 1 o “Jogo da Paz” cotra os Estados Unidos – e, então, um certo grupo da sociedade iraniana aproveitou oportunidade para se fazer ouvido como há muito não era.

Diante da classificação heróica, milhares de mulheres desafiaram a proibição imposta pela Revolução Islâmica de 1979 e se dirigiram ao Estádio Azadi, em Teerã, para recepcionar o time iraniano. No livro “Como o futebol explica o mundo”, Franklin Foer relata que, incapaz de frear a vontade das mulheres, a polícia local foi obrigada a ceder e permitir a entrada de três mil mulheres. Pouco depois, outras duas mil forçariam a entrada no estádio, deixando atônitos os policiais e os hábitos de uma nação.

O futebol, no entanto, não mudou o país. As mulheres continuam tendo um papel na sociedade bem diferente do que conhecemos na cultura ocidental e muito aquém daquilo que o imaginado e desejado por elas – pelo menos, é isso o que a imprensa ocidental me faz crer. Em compensação, não se escreve mais a história do Irã sem citar esses dois momentos, a revolução do twitter e a revolução do futebol. Momentos marcantes, transgressores, mas que nem sempre resultam em uma mudança imediata – ou mesmo a longo prazo – nos costumes, na políticas e, enfim, na sociedade.

Eu sou iraniana com muito orgulho, com muito amor

Eu sou iraniana com muito orgulho, com muito amor

Assim é o esporte, uma peça da engrenagem da nossa sociedade, como as artes, a justiça e a medicina, só para citar alguns outros componentes. Tudo aquilo vivido pelo esporte reflete de forma direta ou indireta na mecânica de nossas vidas e, em muitos casos, é a ferramenta mais adequada para que um ajuste necessário na sociedade seja feito – e escancarado publicamente.

Se vocês quer saber se o esporte é um elemento de transformação, pergunte às mulheres no Irã. Se você não conhece nenhuma, use o twitter.


Este texto participa de uma postagem coletiva coordenada por Breiller Pires, do Rola Blog, em comemoração ao Dia Universal Olímpico. A proposta era do debate é discutir a seguinte afirmação: “o esporte é capaz de transformar o mundo e a sociedade em que vivemos”.

6 Comentários

Arquivado em Memórias

6 respostas para O esporte e a sociedade: sobre mulheres e twittadas

  1. Mídias sociais e o futebol se aproximam em um aspecto fundamental: a capacidade de mobilização. Imagina se a Seleção do Iraque estivesse, neste momento, lutando por uma nova classificação à Copa do Mundo? A possibilidade de ajuste entre futebol e política que estaria em jogo? A mobilização gerada em torno das duas causas?

    Imagino que, nessas condições, as eleições no Iraque teriam proporção e repercussão ainda maiores, sobretudo, com mais informação disponível. O governo iraniano pode esconder dados e cercear a cobertura midiática internacional, como ocorre nessas eleições, mas não teria esse poder – como as mulheres provaram em 1997 – de ocultar o futebol e seus desdobramentos.

    Bacana é que quando há algum evento ou grande mobilização em torno de alguma partida, a imprensa busca saber mais não só sobre a escalação de uma equipe, mas, também, a respeito do país, da história, da cultura de um povo. Como tem acontecido agora, com África do Sul. Como aconteceu com a China, ano passado – o que foi muito válido, pois serviu para mostrar que a censura chinesa é impotente diante de uma cobertura global, de grande proporção.

    A questão é pensar como o futebol, o esporte e até mesmo as mídias sociais devem utilizar melhor o poder que dispõem para promover mudanças efetivas, ainda que em longo prazo.

    Ótima menção ao livro do Foer. Sem dúvida, uma grande inspiração para a nova série no Rola Blog. Parabéns pelo post!

    Abraços!

  2. zarko

    esse é meu sócio.

  3. Rodrigo

    Revolução do Twitter é papo de William Bonner!

    Muito bom o texto, o poder do esporte – e do futebol especialmente – é algo impressionante.

  4. Olá!!

    Tudo bem?
    Muito legal o texto que você fez para o Dia Olimpico Universal!!

    A iniciativa do Breiller foi muito boa né?

    De uma conferida no texto que o Renan escreveu também!

    http://www.ligadonabola.com.br

  5. Leandro!!

    Tudo bem?
    Muito legal o texto que você fez para o Dia Olimpico Universal!!

    A iniciativa do Breiller foi muito boa né?

    De uma conferida no texto que o Renan escreveu também!

  6. zobaran

    Leandro?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s