Perez Pereyra, um botafoguense

por Eduardo Zobaran

de PUERTO QUIJARRO, Bolívia

 

Perez Pereyra é o típico sujeito boa praça, mas para ser franco minha primeira impressão do camarada era que tava tentando dar um golpe pra cima de mim. E, você sabe, pra cima de mim não, cumpadi!

O conheci cerca de uma hora antes de embarcar no Trem da Morte. Sim, o tradicional trem que parte de Puerto Quijarro – cidade boliviana distante quinze minutos de Corumbá, no Brasil – e vai até Santa Cruz de la Sierra, a cidade dos negócios na Bolívia, dos que querem autonomia e, também, dos que não querem ver o Evo Morales nem fantasiado de operador de bolsa de valores. Mas, voltando ao assunto original, conheci Perez ali, meio que tentando matar um tempo com meu mais novo casal de amigos, ele, um turismólogo recém-formado nascido no interior do Paraná, São Paulo ou Mato Grosso do Sul (essa é a famosa precisão jornalística), e ela, alguma coisa que eu não lembro e neozelandesa. Por sinal, belo casal e ótima companhia.

"Fronteira" tudo bem, agora "controle" é sacanagem

"Fronterizo" tudo bem, agora "control" eu não vi não

O horário era mais ou menos nove e meia da manhã. Havíamos atravessado a fronteira há pouco, onde nos conhecemos, e de lá rachamos um táxi. Compramos as passagens do trem, que sairia dentro de quatro horas e trocamos alguns reales por bolivianos, o faz-me-rir local. Depois, muito tempo a gastar. Cerveza, então pensei e a ideia logo foi acatada pelo amigo brasileiro. O detalhe da hora, no entanto, não ajudava. Ainda que estivesse uns 36 graus da porra, numa secura da disgrama e uma poeirada do carajo, que subia a cada carro que atravessava a rua de terra, ninguém ali parecia estar num barzinho tomando uma juco de cevadis. Na verdade, não tinha nenhum estabelecimento com carinha de boteco nas redondezas. Foi então que surgiu a figuraça citada logo no primeiro parágrafo desse texto, o lendário Perez Pereyra.

E, antes que você se questione, vos digo. Sim, ele é boliviano e, sim, ao perguntar seu nome ele resolver dizer o nome completo. No início achei que era uma coisa pessoal, afinal, a combinação de nomes é de dar inveja para qualquer dupla sertaneja – que, por sinal, fazem muito sucesso em Santa Cruz. Mais tarde, no entanto, perceberia que essa é uma característica de bolivianos lá nos seus quarenta e tantos anos. Dizem o nome e o sobrenome e humildemente se fazem mais respeitados por isso. Gostei pra valer disso.

Pois Perez logo percebeu que buscávamos algo e, solícito, veio ao nosso encontro nos ofertar mercadorias, produtos e serviços de qualquer estabelecimento existente na região. Estaria o moço sendo simpático conosco ou teria ele farejado carne fresca com dinheiro valorizado (R$ 1 = B$ 3,70) marcando bobeira no pedaço. A primeira reação de um carioca, é claro, imaginar que o cidadão está prestes a dar uma banda de frente e, se der mole, quebrar quatro dentes e cinco costelas. Mesmo assim, do alto da petulância daqueles que tem uma moeda mais forte, emendei: “Amigo, una cerveza…helada…donde se compra acá?”

Menos de R$ 3

Perez apontou para o relógio e sorriu. Sim, ainda estava temprano, mas a viagem seria longa – mais tarde descobriríamos, 20 horas – e o melhor remédio, depois de Dramin, é uma cerveja gelada para te deixar legal e dormente como um cachorro vira-lata de cidade quente do interior. Além disso, com tanto tempo para gastar e pouco o que conhecer, ampliar meus conhecimentos etílicos-bolivarianos parecia ser o melhor a fazer.

“Amigo…Paceña, Pico de Plata”, disse Perez, apontando para o frigorífico de um mercadinho que parecia resfriar carnes, mas na verdade guardava quantidades respeitáveis da melhor amiga do homem, a cerveja. Assim fui apresentado para aquela que seria a minha companheira de viagem, a Paceña Pico de Plata. Na Bolívia, ainda a trairia com outras engarrafadas pela mesma companhia cervejeira, como a Pico de Oro e a Huari (a melhor), e também a Autêntica e a Potosí, só para as mencionar as não foram borradas pela fraca memória jornalística.

Perez sacou três botellas, colocou em nossas mão, nos mostrou que para abrir basta girar a tampinha e abriu um sorriso bonachão. Nos disse também quanto pagar e, por isso, imaginamos na hora que tratava-se de uma compra superfaturada. Quebramos a cara quando, mais tarde, fomos comprar a mesma cerveja e pagamos um boliviano a mais.

“Muy buena”, sentenciei, com um leve sotaque de morro carioca. Aquele silêncio constrangedor que se sobrepôs ao superficial comentário deveria ser interrompido e não pensei duas vezes, lancei a clássica pergunta. “Entonces, qual és su equipo?”, mandei, antes de explicar que me referia ao querido fútbol. A resposta, no entanto, não chegou, mas sim uma pergunta. “Aqui ou no Brasil?”, indagou surpreendentemente. “Tu…tu…tu tienes uma equipo en Brasil?”, retruquei e fui prontamente respondido com uma ingrata palavra: “Corinthians”. Mas lá na Bolívia, completou, torce para o Bolívar, o mais popular do país.

Torcedor do Palmeiras flagrado de dentro do Trem da Morte, que nem é tão da morte assim

Torcedor do Palmeiras flagrado de dentro do Trem da Morte, que nem é tão da morte assim

Puembas, como assim o cara é Corinthians? “Yo soy Botafogo…Bo…ta…fuego…Conoces?” Claro, me respondeu. “Negro y blanco, como Ponte Preta”. Meu deus do céu. Agora o cara tá gastando com a minha cara. Deve ser um desses malandros do Impedimento que moram nesses países aí que só o Eduardo Galeano se amarra, pensei. “No, no…sí, sí, es negro y blanco, mas rajado así, así (gesticulosamente mostrando as faixas verticais). Ponte Preta es equipo chiquitita. Botafogo… muy grande, gigante (leia-se, rigante), de Garrincha, más grande de todos, mejor que Pelé y Maradona”, expliquei.

Minha moral estava lá com os vira-latas após tanta humilhação. Estávamos sendo comparados à Ponte, que, com todo o respeito que reservo à Macaca, é o time que nunca ganhou um título. Mas eis que o homem desanda a falar. Sim, ele conhecia muito bem o Botafogo, é claro. Sobre o Garrincha… descreveu perfeitamente a curvatura das pernas do Mané e ainda me disse que se eu continuasse bebendo tão cedo acabaria como o famoso jogador. Nunca um puxão de orelha para minhas recaídas etílicas foi tão bem recebido. Nunca havia sido comparado com Garrincha. Que honra!

Papo vai, papo vem, lembro da minha camisa no mochilão, que estrategicamente foi posicionada próximo ao zíper lateral da guerreira para que eu pudesse pegar a indumentária em um momento de emergência, exatamente como aquele. “Mira…Botafogo”, apresentei. Perez não parecia menos feliz. Nesse momento sua alegria era tamanha que eu já começava a me procupar. Será que ele achava que trata-se de um regalo? De um presente? Tratei de pegar a camisa de volta, mas não sem antes lhe pedir uma foto.

Perez nem pestanejou, ao invés de posar com a camisa na mão, vestiu a camisa do seu mais novo time no Brasil.

Perez Pereyra dá uma alargada gratuita na minha camisa

Perez Pereyra dá uma alargada gratuita na minha camisa

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19 respostas para Perez Pereyra, um botafoguense

  1. Rodrigo disse:

    Voltou com tudo hein moleque. E gostei de ver, sempre divulgando e internacionalizando o gigante chamado FOGAO!
    Agora, aposto que nenhuma dessas cervas de bolivarianos supera a nobre Cusqueña!

  2. rolablog disse:

    Haha! Muito bom, cara. Figuraça o Perez Pereyra. Esse costume de dizer o “apodo” junto ao nome, ou apenas o sobrenome completo, se estende por vários países de língua espanhola, inclusive na Espanha. Também dou moral.

    Abraço e boa viagem por aí,

    Breiller Pires

  3. zobaran disse:

    Rodrigo,

    De faCto, a Cusqueña é a melhor cerveja que eu tomei. São várias Cusqueñas diferentes, mas todas mais “fortes” (os mestres cervejeiros odeiam quando classificamos cervejas dessa maneira) que as bolivianas, que tem mais um jeito de cerveja brasileira. Ainda assim, as bolivianas são boas. A Huari, também conhecida como a Boêmia da Bolívia (um título que eu inventei e só eu conheço), vale muito a pena. Já essa Autêntica é uma autêntica Bavaria, mas um pouquinho mais tragável.

    Breiller,

    Rá…percebi que no Peru rola isso também. Aliás, a viagem já acabou, mas pode deixar que foi boa (tirando a mão quebrada). Mil desculpas se ficou parecendo que eu ainda estava lá. O objetivo não era enganar esse Brasil de anil que lê o Yougol.

    abs,

  4. Cassol disse:

    Que troço sensacional. Aguante, Yougol!

  5. Raphael Zarko disse:

    isso prova que todo corintiano é sempre um corrupto à disposição. vide lula

  6. Luísa Parnes disse:

    De novo, representando a ala feminina dos leitores!! :) Muito boa essa história. Esses personagens que encontramos pela vida…

  7. rafael botafoguense disse:

    BOTAFOGO A TODA PARTE!

    parabéns zobaran,todo botafoguense tem sua missão para com a estrela,já que fomos esquecidos temos que lembrar a todos o quão sinistro fomos e somos!!

  8. Yuri disse:

    HAAHUHAUHAUHAUHAUAHUAHUA

    velho, nem consegui ler o texto direito, de tanta dignidade e felicidade!!!!!

    olhem isso porra, olhem isso!!!! TIMÃO RULEIA, EU SEMPRE DISSE!!!!!!!!!!!

    Isso não só prova que golpista e ladrão tem em qualquer lugar, muito menos que os clubes precisam marcar presença em libertadores para serem reconhecidos america afuera, mas sim queeee….

    … o corinthians, ah, o corinthians, o mosqueteiro imortal, carrega a espada da verdade e arranca o coração dos impuros, esse time amigos, digo-lhes, é o arquétipo da dignidade que rotunda heroicamente o seio dos batalhadores, aqueles que não se rebaixam e não se aviltam ante o neoliberalismo nefasto que permeia a sociedade, pois o corãção do nobre e dos justos sempre rotundado será pela paixão arrebatadora que avalassadoramente atinge a alma dos escolhidos por Deus, pois é do Senhor o reino dos céus e este clube, o SCCP, é o arauto da honestidade desportiva e rompedor de fronteiras geográficas… o pendão sagrado, o brasão inexpugnável, a rejeição inexequível até mesmo aos rivais mais imundos e calhordas… tudo isso faz com que esse clube tenha uma grandeza mística, imortal, o gorjeio encantado que há em só de olhar para tão bem desenhado símbolo, que alterado ao longo dos anos, nunca deixou de ser o signo da verdade e dignidade estoicamente estóica com estoicismo enlevado que extasia os iluminados como esse señor, que mesmo fora do país de origem de tal milagre, brande as mesmas espadas, as mesmas glórias, o mesmo brasão invilipendiável, a mesma resistência às vicissitudes neoliberais, a mesma honra…

    (pausa)

    sim amigos… foi o que aconteceu, foi o que aconteceu… FOI O QUE ACONTECEU a esse mui nobre cavalheiro, que extático (eu disse EXTÁTICO, imbecis) ficou com as glórias alcançadas esse ano e ficará ainda mais quando o BASTIÃO DA MORAL INCORRUPTÍVEL, o SC Corinthians Paulista, desfilar sua bainha e sua espada inoxidável pelos gramados da América… e desbainhar sua espada ante os inimigos que ousarem cruzar seu caminho, e se for preciso até baionetas e arcabuzes serão impiedosamente utilizados…

    esse é o Corinthians amigos. ESSE é o Corinthians, infieís… e quem discordar de uma só palavra proferida por mim, provar-se-á o mais canalha dos seres.

  9. Ique Muniz disse:

    Ahahaha sensacional Zoba… Que viagem!
    Perez um típico tio da Bolívia: moreno, rechonchudo, bigodinho e olho puxado… Quero ver as próximas aventuras..

  10. Yuri disse:

    hahahahahaha…

    ele só vestiu pois achava que vc ia dar a camisa… hahahaha

    TIMÃO RULEIA, FILHÃO. não foi dessa vez.

    enfim, é só ler o que escrevi anteriormente e ponto.

  11. Yuri disse:

    não mencionar o blog impedimento, faz favor.

    aqueles lá são canalhas e calhordas da pior espécie.

    desgraçados do caralho, aquele lixo de blog deve estar sucumbindo sem meus dizeres sagrados. nunca mais cliquei naquele lixo.

  12. O Grande Éle disse:

    E esse moço na cédula boliviana, quem é? Parece personagem de Dragon Ball Z.
    Texto muy bueno, Zoba. Mas não pense que vc tá comprando o cara só pq o deixou alargar tua camisa. Lembre-se da marchinha cantarolada anos a fio (com trocadilho, por favor) pelo Deus-Silvio Santos: “doutor, eu não me engano, meu coração é corintiano…”.
    Há de se respeitar quem torce pelo time do Ronááldo…

  13. zobaran disse:

    hahahaha…boa, Yuri!

    Cara, não sabia que você tinha esse atrito com a galera do Imped. Só me lembro dos seus e-mails de música ruim nas madrugadas impedimentistas e seus diálogos com o RB. Mas aí… acho que essa galera curte o Curintía pq estão ali do lado de Mato Grosso do Sul e pelo visto são bem influenciados pela região, daí o gosto pela nossa (nossa não, de vocês) música sertaneja. Acho que o futebol acaba levando isso também. Se não for isso, foi um boliviano que jogou no seu time aí recentemente. São minhas teorias, que, dá pra perceber, não contém nenhum argumento científico pra valer.

    Mas faCto é que o cara conhecia sim, e admirava, o Curintia, a Ponte e o Botafogo. Sinta-se feliz mesmo…isso é legal. Mas agora já era…Don Perez Pereyra é fogón até morrer!!!

    abs,

  14. Yuri disse:

    explicarei-te:

    por motivos de puro preconceito, o caras BANIRAM-ME do impedimento. e duas vezes!!!!

    na primeira, foi pelo excessivo número de comentários e diálogo com RB… aí eu prometi diminuir o ritmo, e diminui!! depois, sabe-se lá porque, me bloquearam outra vez, só por causa que alguns big boys (caras conhecidos pessoalmente por eles) tem antipatia pelos comentários. e desde quando isso é motivo?

    chamaram-me de tudo lá… viado, retardado, débil, impotente, virgem… (sério) aí eu fiz uma crítica acerca da saída do cassol e o cara falou que o problema no site era eu… aí eu me enfezei e prometi não clicar mais lá até o fim do brasileirão, mas tô pensando em estender isso ou até nunca mais clicar (digo clicar pois tem gente que lê mas não comenta, mas eu nem leio mais, nem sequer clico neles).

    chato, pois foi nitidamente por eu NÃO ser gremista ou colorado. se fosse, metade do RS iria me idolatrar (imagina eu exaltando o grêmio com esse meu estilo de escrita?). é foda.

  15. Yuri disse:

    desculpa pelo comentário longo.

    mas é que coisas assim tem de ser bem explicadas.

  16. Yuri disse:

    só para colocar um ponto final nessa história:

    eu fui o ÚNICO que foi banido do impedimento até hoje. único. e duas vezes.

    tendo em vista a quantidade industrial de visitas do site e do número de idiotas que lá postaram (e muito), esse facto por sí só já é injusto.

    é isso.

  17. zobaran disse:

    Fique tranquilo que aqui você não vai ser banido. Até porque nós não sabemos como fazer isso no wordpress…

    De qualquer forma, eu continuo lendo o Impedimento.

    Enfim…é isso. Falemos do Corinthians….

  18. Fernando Pereira disse:

    Que isso, Perezito deve ser meu parente (a diferença é que aki nóis excreve com I, e não com Y)….a genética da pança bate….

    me deu mó vontade de tomar uma cerva sápô…..

    faltou a pergunta cabalística (que pode ter sido feita, porém não reproduzida): “Se juegan Bolívar e Corintiá en la Libertadores, a quién alentarás?”
    Corazón partido?

  19. rafael botafoguense disse:

    yuri pode crer,acho injusto seu banimento,eu já quase fui banido também por causa dos comentários excessivos hahaahahah aquele dia foi comédia,mas também pararam de escrever textos zuando o botafogo ai consequentemente eu parei de xingar eles hahah,deve ser por isso.

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