por Felipe Silva*
Numa série de textos sobre as seleções da década de 2000 dos grandes clubes brasileiros, óbvio que o maior de todos, o Avaí, não poderia faltar. Brincadeira à parte, acredito que o convite do Zobaran para que eu escrevesse o texto sobre o scratch dos sonhos do Leão da Ilha mostra como meu time ganhou espaço no cenário nacional. De “time do Guga”, depois “rival do Figueirense”, o veterano clube florianopolitano, que completa 87 anos em 2010, figura hoje entre as 20 maiores equipes do País e desperta a curiosidade de quem pouco conhecia este que foi o clube recordista de títulos no século passado em Santa Catarina.
A década de 2000 tinha tudo para entrar para a lata de lixo da história avaiana, já que nos primeiros sete anos e meio o Leão foi incapaz de dar uma alegria sequer aos torcedores. Foram oito anos (2000-2008) sem chegar a uma final de estadual, oito anos (1999-2007) tentando em vão chegar à Série A, cinco anos (2000-2005) sem ganhar do Figueirense, seis anos (2002-2008) aturando “eles” na Série A ganhando cinco estaduais e nós na Série B sem renovar a sala de troféus. Mas a partir da Série B de 2008 a maré mudou. O Avaí subiu à Série A, ganhou finalmente um título depois de 11 anos (estadual 2009) e alcançou a melhor colocação de uma equipe catarinense na história da primeira divisão nacional (6º).
Seria fácil, pois, montar uma seleção da década só com jogadores de 2008 e 2009, mas não farei isso. Houve aqueles que mesmo nas épocas inglórias souberam honrar a nossa bela camisa azul e branca e que merecem ser lembrados. Antes de começar, explico que escolhi 12 jogadores para minha seleção. Logo vocês vão entender o porquê.
Goleiro

Martini saindo do gol. Bola? Que bola?
Se apenas a qualidade técnica contasse, teria escolhido o veterano gaúcho Gilmar (2005) ou o jovem prata da casa Thiago Bambam (2006) como o goleiro avaiano da década. Eduardo Martini (2006-2009), ex-Grêmio e Juventude, teve seus dias de herói, mas não foram poucos os dias em que foi vilão. Capaz de fazer uma defesa impossível num lance e no minuto seguinte levar um frango ridículo, incapaz de sair do gol com seu mais de 1,90m de altura e especialista em ficar enterrado debaixo das traves a cada cruzamento adversário, ele sempre deixava a torcida avaiana com um pé atrás.
Mas dizer o que de um goleiro que ficou quatro temporadas seguidas no clube, foi o titular no acesso à Série A, no único título avaiano da década (Catarinense 2009) e na campnha histórica na Série A? Eduardo Martini ainda fez gol chutando de sua própria área, atacou de segurança e “rendeu” um invasor de campo num amistoso com o Grêmio e recebeu um curió de presente de um jornalista pelo título estadual. Mito.
Lateral-direito

Carlinhos, o homem que corria demais.
Em 2006, logo que o Dunga assumiu a Seleção e começou a renovar e inovar nas convocações (Jô, Bobô, Afonso Alves e assemelhados), o baiano Carlinhos (2005-2006) tava jogando tanta bola na lateral-direita do Avaí que teve jornalista catarinense sugerindo que o treinador-anão deveria chamá-lo para a Canarinho, apesar de o Leão estar na Série B na época. Exagero, é claro, mas Carlinhos fez por merecer figurar na Seleção Avaiana da Década de 2000.
O Carlinhos que passou pelo Avaí mostrou-se um jogador veloz, ofensivo e muito bom nas bolas paradas – chegou a ser artilheiro do time no início da Série B de 2006, só marcando de falta ou pênalti. O único problema é que sofria da síndrome do gato castrado: não conseguia cruzar. Depois que saiu do Avaí, teve passagens sem brilho por Fluminense e Náutico.
Zagueiros

Caio e Rafael, ou Rafael e Caio, tanto faz
O Avaí teve na década dois zagueiros gêmeos que vieram do Juventude. Cássio (2007-2008), hoje no Fluminense, e Rafael (2007-2010), raras vezes jogaram juntos, mas revezaram-se na titularidade da defesa do Leão. Difícil dizer quem jogou mais. Além de serem idênticos, têm estilos idênticos. Aposto que eles de vez em quando faziam coisas do tipo “ah, o técnico me escalou hoje, mas bebi demais ontem e tô cansado. Joga tu, pode ser?” e ninguém descobriu. Não sei dizer quem foi o melhor, então qualquer um serve.
O cara que joga na zaga ao lado de um dos gêmeos é Émerson (2008-2010), ex-Gama. Quarto-zagueiro com mais de 1,90m, canhoto e bom de cabeça. Marcou 7 gols na Série B de 2008. Num jogo contra o Bahia, ele fez dois gols, um deles recebendo na área e driblando o goleiro no melhor estilo centroavante. Genial. Confere no videozinho abaixo a categoria do cara:
Lateral-esquerdo
Fechando a defesa da década no Avaí, poderia colocar Eltinho (2009-2010), de excelente atuação na Série A. Mas como bom sofredor, não posso deixar de fazer uma homenagem a um jogador que se destacou no deserto de alegrias que era o Leão no início da década. O canhoto Mazinho Lima (2001-2003), que depois passou por Ceará e Fortaleza, jogava na lateral quando faltava lateral e jogava como meia quando faltava meia, sempre com a mesma regularidade. Uma pena que tenha saído do Avaí sem conquistar nada. Merecia estar no grupo que conseguiu o acesso à Série A.
Volantes
Quando alguém faz a sua seleção ideal, pode ter certeza que vai inventar moda no meio-campo. Teve uma vez que vi um cara colocando o Zidane de primeiro volante (!!!), junto com Pelé e Maradona no meio. Pode uma coisas dessas? Devia ter aproveitado e colocado o Van Basten no gol. Seleção, mesmo que de mentirinha, tem que ter um primeiro volante, o camisa 5, raçudo, pegador, brigador, daqueles que fazem jus à expressão “em cada enxadada, uma minhoca”. Por isso, escolho o desconhecido (de vocês, claro) Juliano (2004) para a seleção avaiana da década. Apesar de pouco brilhante, era duro na queda e fez parte do time que quase subiu para a Série A.

Não é fácil achar foto do Juliano na internet.
Ao lado dele, jogam dois canhotos. Sim, minha seleção tem três volantes (eu sou do Sul…). Batista (2007-2008), hoje no Botafogo, foi um dos líderes do time na Série B de 2008 e, com a braçaceira de capitão, comandou aos berros e carrinhos a meiúca avaiana no ano do acesso. Não foi à toa que recebeu o apelido de “O Chefe”.

Deixou saudades.
Mais refinado, Léo Gago (2009) parecia que tinha nojo de sujar o uniforme e uma certa preguiça em desarmar os adversários, mas passava e lançava a bola de um lado para outro do campo com rara habilidade. Sem contar a sua patada, “A Canhota que Não Gagueja”, que rendeu diversos golaços de fora da área, como bem lembram corintianos, cruzeirenses, tricolores cariocas e os torcedores do Barueri, se é que estes existem.

Adriano tietando seu ídolo Léo Gago.
Meia
Minha seleção joga com um meia só, mas um meia que, pra nós avaianos, vale por 10. Marquinhos (1999-2000; 2006; 2008-2009) é ídolo porque jogou muito aqui e, acima de tudo, porque é avaiano. Nascido em Biguaçu, cidade a 20km de Florianópolis, sempre ressaltou sua origem e o seu amor pelo Avaí. O “Galego”, ou “O Maestro” é prata da casa, surgiu em 1999, jogando demais com apenas 17 anos. Saiu, esteve na Alemanha (Bayer Leverkusen), rodou por clubes grandes sem brilho (Flamengo, São Paulo, Atlético Mineiro) e volou para levar o time do coração à Série A ao primeiro título estadual depois de 12 anos. Entra não só na seleção da década como na seleção da história do clube.

Não vi Pelé, mas vi Marquinhos.
Atacantes
Gosto de centroavantes, daqueles que têm o número 9 tatuado nas costas, mas na minha seleção da década do Avaí não há espaço para eles. Isso porque os dois atacantes que mais se destacaram não são daqueles “de área”. O primeiro, Muriqui (2007; 2009) desfilou habilidade e velocidade nas duas passagens que teve pelo Leão. Em 2007, foi um dos poucos, talvez o único, que se salvou num dos piores times que já vi na vida e que quase caiu pra Série C. Em 2009, foi o próprio capeta em forma de gente na Série A, infernizando as defesas dos adversários com dribles e arrancadas espetaculares. Melhor jogador do Avaí na primeira metade da Série A.

"Segura que eu quero ver".
Os leitores mais antigos devem se lembrar que Telê Santana, na época de jogador do Fluminense, recebeu o apelido de “Fio de Esperança” porque era muito magro e costumava marcar gols decisivos, principalmente nos minutos finais. O segundo atacante da minha seleção foi o “Fio de Esperança” do Avaí nas três passagens que teve pela Ressacada. Evando (2004; 2007; 2008-2009) especializou-se em aparecer nas horas e que o desespero atingia níveis alarmantes.
Evando gols decisivos nos minutos finais em três importantes jogos da Série B de 2008, incluindo o do acesso, contra o Brasiliense. No Catarinense de 2009, passou 95% do tempo brigando com a bola e a torcida, mas nos dois jogos mais importantes, o que nos deu a vaga no quadrangular semifinal e o do título, apareceu fazendo gols e jogadas fantásticas. Não foi à toa que recebeu o apelido de “O Iluminado”.

Justa homenagem da torcida a Evando.
Treinador
Na década de 2000, o Avaí chegou a ter como comandantes gente do naipe de Cuca (1999-2000), Adílson Batista (2002-2003) e Dorival Júnior (2006), mas somente um treinador conseguiu trazer alegria à nação azurra. Silas (2008-2009) ficou 22 meses no comando do Leão, conquistou o único título da década, levou o time à Série A, alcançou a melhor colocação de um time catarinense na história da Série A (6º), ficou mais de um ano sem perder na Ressacada… Enfim, argumentos não faltam para defender que o ex-meia do São Paulo e da Seleção foi o melhor treinador do Avaí na década. Vai ficar na história.

Eterno.
Resumindo, a seleção:
Eduardo Martini; Carlinhos, Cássio/Rafael, Émerson e Mazinho Lima; Juliano, Batista, Léo Gago e Marquinhos; Muriqui e Evando. T: Silas
* Felipe Silva é jornalista, torcedor do Avaí, impedimentista e toca o blog Onde a Coruja Dorme.
leo gago é rei. adriano, que é imperador, na foto, estava prestes a praticar um craquete no mais novo craque de são januário.
e é bom lembrar que muriqui sempre jogou muita bola. no vasco, surgiu muito bem, driblava muito, tinha força, mas se machucou direto, e dizem q chinelou um pouco. mas foi um mole deixar ele ir embora…
o cara é mt bom e deve deslanchar de vez no galo. se bem que deslanchar era um verbo mais propício ao hawaii.
Gostei do equilíbrio, esperava ver o time desse ano inteiro aqui.
E só pra maltratar vocês, avaianos: Ahá-uhú, o Marquinhos é nosso!
Seleção genial, Felipe. É claro que tem sua bizarrices, como o Muriqui, uma espécie de Josafá que deu menos errado. Mas tem também coisas boas, como – e como! – aquela beldade ali. Pelo amor de meus filhinhos, a lhermu me desestabilizou. Como eu vou trabalhar com essa imagem na minha cabeça?
Dá-lhe, Avaí!
por falar em figueira e avaí, o felipe silva poderia dizer aos vascaínos: rafael coelho joga bola mesmo?
acredito que o convite do Zobaran para que eu escrevesse o texto sobre o scratch dos sonhos do Leão da Ilha mostra como meu time ganhou espaço no cenário nacional.
só porque eu ia me enaltecer… deixa prá lá.
olha o batista ali!
agora mandamos o emerson pra eles,presença garantida na próxima seleção,sem dúvida.
complementando o texto e a foto:
Belo texto!
Me diz uma cosa Felipe: como vocês aturam esse narrador do PFC catarinense o ano todo?? Que voz chata que tem esse loco, putaqueparilis.
recomendo o blog ONDE A CORUJA DORME, que é de alto nível e apesar de VAGABUNDAMENTE pouco ter andado esse ano, continua genial. é um excelente blog, com PARCA fama, irreconhecido pelas grandes mídias
pronto felipe, agora me vê meus 10 conto
Que mulher é essa? Pura sedução…só de olhar pra ela já sinto o cheiro de libido no ar! Da-lhe Avaí!
Parabéns ao autor, tanto o texto quanto as fotos e suas legendas estão sensacionais.
(Ei, cadê a Seleção da década do Palmeiras?)
((Pensando bem, deixa pra lá…))
vagner love tem espaço na seleção da década palmeirense? acho que nem no time dele lá na rússia.
a verdade, pasmem todos, é que ele só joga bem quando o técnico é o ZICO.
Pior que tem espaço, e como. A carência de 9s decentes desde a saída do eterno Evair (que usava a 17 na segunda passagem, mas isso não vem ao caso) tem este tipo de efeito colateral…
Prestes, eu não aguento. Eu não tenho PFC, mas esse bicho também narra jogos na TV aberta (RBS). Quando passa o Avaí na TV, vejo o jogo na TV e escuto no “raidinho” pela CBN. Bem melhor assim.
Já ouvi transmissões da CBN do RJ e de SP e da Gaúcha aí do RS e acho que a CBN daqui não fica a dever em nada em termos de transmissão, com exceção de um ou outro comentarista que são péssimos. Mas os narradores e os repórteres de campo são bons.