Lembrança de (pré-)Copa: Brasil x Argentina, 1998

* Por Leon Corrêa

Já estamos combinados que o depoimento do menino Manuel Amado em sua aventura nipo-jabazenta é hors-concours, né? Então vou misturar a outra lembrança, do assassino de aulas Felipe Tartari, com a minha. Já adianto que o meu memorial não é exatamente de copa, mas sim de pré-copa. Senão vejamos. Depois do apogeu das lembranças de nós, semi-balzaquianos, já fartamente documentados num glossário de A a Z neste Glorioso blog, íamos todos ainda extasiados pelo tetra (mas já sedentos pelo penta) para a Francia ’98.

Naquele tempo o regulamento era justo e o campeão desfrutava do privilégio (direito) de não disputar as eliminatórias para a Copa seguinte. Lado bom: quatro anos sem ter que aturar o Gavião Urubueno e seus bordões irritantes para dramatizar algo que nunca deixou de ser conquistado: a vaga na copa. Lado ruim: enquanto as outras seleções estavam entrosadas e se matando para chegar lá, o escrete canarinho se limitava a correr o mundo fazendo amistosos caça-níqueis e participando de torneios de alto gabarito como a Copa Ouro da Concacaf, quando fomos batidos pelo simpático combinado estadunidense e defecamos (suamos) sangue para superar os filhos de Bob Marley (ambos por 1-0).

Coletivo antes de partida contra o Brasil

Coletivo antes de partida contra o Brasil

Ainda assim, entramos na reta final da preparação com uma vitória sobre a seleção (de masters) da Alemanha em Stuttgart, em março. No mês seguinte seria realizada uma grande festa de despedida dos nossos craques, que seriam acarinhados por todo o povo brasileiro e deixariam o solo pátrio em busca de mais um caneco para a nossa coleção (modo ufanista on). A convidada não poderia ser mais perigosa: nossa querida Argentina, comandada pelo re-retranqueiro Daniel Passarella. E o local, igualmente propício para tragédias épicas, o Maracanã lotado pela sempre exigente torcida carioca.

Aí entra a semelhança com a história do Tartari: naquela época eu era apenas mais um rapaz latino-americano lutando contra a pobreza (a luta continua!) e já trabalhando 40 horas semanais num sub-emprego para alimentar meus vícios & virtudes. Quando o sol caía eu ainda teimava em frequentar as aulas do melhor e mais tradicional colégio deste país, o querido Pedro II do Humaitá. O amigo leitor vai concluir: matou aula pra ver o jogo, etc. Calma aí, amigão! Quando se trata de fazer mierda, eu sou PHd desde pirralho. Matar uma aulinha qualquer é moleza…

Quero ver neguinho (pode ser branquinho também) ter cojones para matar não apenas uma aula, mas uma prova. Não somente uma prova, mas uma prova bimestral (com peso duplo na complexa média aritmética de fim de ano!). Não apenas uma prova, mas DUAS PROVAS! Sendo uma de português e outra de QUÍMICA INORGÂNICA! Repetência garantida! Mas a matada homérica valia a pena porque o jogo era especial por vários motivos. Seria a minha primeira vez in loco vendo a Seleção, que ainda era brasileira, no Maior do Mundo contra o maior rival às vésperas de uma copa do mundo. Nada podia dar errado. Mas, como sempre rola no meu caso, deu.

... mas não deu

... mas não deu

Pra começar, essa foi a última vez em que o Brasil foi visto por mais de 100 mil no estádio, já que naquela época o Maraca não tinha as lamentáveis cadeirinhas instaladas no fim de 99 para a primeira Copa do Mundo de Clubes da FIFA®. Então o povo ficava no cimentão mesmo. E não tinha aquelas paredes horrendas de vidro, apenas grades simples para separar as torcidas. Outro detalhe importante, ainda mais para quem não conhece a dinâmica das organizadas: imagina que delícia o lado esquerdo das cabines com a raça fra, jovem fra & young flor ocupando O MESMO ESPAÇO AO MESMO TEMPO! Não pense que em jogo de seleção os ânimos se arrefecem, pelo contrário, a pancadaria foi generalizada antes, um pouco menos durante, e muito depois do jogo. Sorte que fiz alguma escolha positiva nessa vida e fiquei do lado CERTO, onde a Força Jovem e a TJB (não existia Fúria) conviveram pacificamente durante todo o evento.

O jogo era amistoso, mas pelo clima bem poderia ser uma grande decisão, com direito a pontapés & cotoveladas pra todo lado. Jogando no 4-3-3, com Denílson correndo pelas pontas e a dupla Ro-Ro com as mãos na cintura dentro da área, nada podia acontecer. Até porque o meio-campo era povoado pelo patético Zé da Fiel, pelo apenas esforçado Cesar Sampaio, e pelo 100% inoperante irmão caçula do Dr.Sócrates. O clamor da hora do hino e a empolgação inicial logo cederam lugar às vaias. E aos coros. Ei, Cafu (errando 11 a cada 10 cruzamentos) vai tomar no… terminal digestivo. Ei, Raí, idem. Ei, Aldair, idem. E por aí vai, até chegar ao Velho Lobo, que um ano antes, após vencer a simpática Copa América, bradou aos microfones “Vocês vão ter que me engolir”. Nesse dia, ele é que teve que engolir a maior vaia que presenciei em 16 anos de arquibancada.

A Argentina tinha um timaço, cujos únicos remanescentes em 2010 são os outrora garotões Zanetti e Verón (o tempo passa, amigo!). Mas com aquele esquema todo borradinho de tocar a bola na intermediária e jogar pra empatar. Eis que aos 39 do segundo tempo, Verón meteu aquele lançamento sensacional de 40 metros e a bola teria que ser dividida na entrada da área entre um zagueiro nosso e o atacante deles. Nosso zagueiro é o iluminado jr. tesoura voadora baiano, que conseguiu a proeza de ficar de lado e amortecer a bola com seu enorme traseiro. Bola limpinha nos pés de Claudio “El Piojo” Lopez, que parou, pensou, ajeitou e estufou as redes de um atônito Taffarel, rigorosamente o único a escapar dos apupos. Voilá, pensei: já tenho meu personal Maracanazzo para contar.

Aguarde e verás, Leon

Aguarde e verás, Leon

Daí pro fim, e até bem depois do fim, mais vaias estrepitosas & ofensas de toda ordem para os amarelões que, além de não dar o prometido espetáculo, entregaram a paçoca dentro de casa para o maior rival! Pode reparar: esse jogo foi o encerramento de uma era. Nunca mais enfrentamos um adversário minimamente decente às vésperas de competições importantes, só absurdos de baixo nível como essas porcarias de Zimbábue & Tanzânia entre outros ainda menos cotados. Sem falar no que se viu na terra do queijo peludo, do champagne fedorento e das moças com bolinhas (não necessariamente nessa ordem) no mês seguinte… E ainda tem gente que não entende porque não torço mais para esse genérico vagabundo que chamam de “seleção brasileira”. A desconfiança começou nesse 29 de abril e virou abandono definitivo depois das cabeçadas de Zidane, o mito.

Um ardendo: nosso time não era ruim, mas tinha vários burronegros (jr.baiano, aldair, leonardo, andré cruz e o pé-de-iglu no comando) algo que historicamente não combina com Seleção Brasileira. Ao contrário do Glorioso que é a SÍNTESE da seleção. Poucos dias depois do jogo, o pé-frio perdedor de pênaltis (à época “coordenador técnico”) cortou Romário da lista de convocados por pura inveja. A meu ver, esse foi o fator que mais contribuiu para o fracasso na França, muito mais do que a miguelite de Ronaldo.

* Leon Corrêa é especialista em contar derrotas & fracassos. A partir de sexta é El Loco na cabeça e Uruguay rumo ao tri. Ou não. Mas pelo menos vai ser muito mais divertido do que torcer para o time de “guerreiros”.

Leia outras LEMBRANÇAS DE COPA

About these ads
Esse post foi publicado em Lembrança de Copa e marcado , , . Guardar link permanente.

19 respostas para Lembrança de (pré-)Copa: Brasil x Argentina, 1998

  1. Alexandre N. disse:

    É Leon… Essa sua experiência foi de doer nos ovos. E você tocou em um bom assunto sobre essa relação de fracasso / sucesso em Copas da seleção em relação à quantidade de jogadores rubro negros que a compõem.

    É um bom caso de estudo e diria que a melhor pessoa para fazer este estudo seria o jovem Rafael Botafoguense, a nossa enciclopédia júnior do futebol… rs

  2. Raphael Zarko disse:

    vou abrir os trabalhos, já que esse jogo foi marcante para mim. aliás, fui em todos jogos da seleção no Rio desde um brasil 3 x 3 alemanha ocidental em 1980 e alguma coisa – exceto aquele no engenhão.

    foi foda antes do jogo, como costuma ser as grandes tragédias. achei lindo a torcida cantando o hino… nesse jogo o edmundo tomou-lhe um socão ou tapa, nao lembro do simeone, segurou a onda e se garantiu na copa.

    e gritaram: “raí, pede pra sair”, entre outras coisas engraçadas.

    quem se lembra dos amistosos que ronaldo e romário fizeram juntos há de recordar que eles formariam a melhor dupla de ataque, quiçá, de todos os tempos da seleção. mas nesse jogo foram uma merda.

  3. Ultima vez que o Maracanã ficou tão cheio em jogo da Seleção e acho que também foi uma das ultimas vezes por estas bandas cariocas, ao menos contra seleções que prestam.

    Claudio Lopes entrou aos quarenta e poucos no lugar de Pineda para afundar a rede do Brasil.

    E realmente, a pancadaria comeu solta do lado mais “rústico” da arquibancada.

    Bons tempos !!

  4. Alexandre N. disse:

    Eles foram mal nesta partida por que são jogadores que dependem muito dos outros setores do time, como meio campo e laterais. E como neste jogo, os meias e as laterais não funcionaram… Bingo!

    E o problema todo do Raí nessa partida foi o mesmo que aconteceu com ele na Copa anterior. Ele sempre jogou muito bem como meia mais próximo aos atacantes. Quando pediam pra ele desempenhar uma função onde jogasse um pouco mais aberto, acabava com ele.

    Uma boa análise sobre o que aconteceu com a seleção de 1994 pode ser vista aqui:
    http://colunas.globoesporte.com/olhotatico/2010/05/29/brasil-1994-o-contexto-que-o-mundo-prefere-esquecer/comment-page-1/

  5. Claudio RK disse:

    O Raí foi mal na Copa de 1994 e nesse amistoso por uma razão simples: era um perna-de-pau.

    Só assisti uma partida da Seleção até hoje, a estreia do “time-bailarino” do Leão (1 a 0 vs Colômbia nas eliminatórias para 2002). O comportamento clubístico das torcidas citado pelo Leon lá foi curioso. O goleiro de hóquei (aka Rogério Ceni) estava na meta aquele dia. Toda vez que havia falta próximo à área os torcedores purpurinados se eriçavam, e os demais torciam para que ele não batesse ou errasse.

    Ainda torço a favor da Seleção, mas ela perder não tira meu sono.

  6. Raphael Zarko disse:

    brasil e equador também lotou. apesar do brasil não ter jogado bem, ganhou mole mole de 5 a 0 do equador, ou do ldu derivado.

    raí jogava muito, discordo acho que pela segunda vez do claudio. mas depois de um tempo e na seleção não sei explicar por quê não jogou bem pelo brasil. não acho que seja por questão de posicionamento, como quis simplificar o alexandre. aliás, já tinha lido aquele texto do rapaz do globoesporte.com. tem coisas certas, mas um bando de coisas que o “mundo nunca esqueceu”, como ele sugere.

  7. André Soares disse:

    É Leon…eu vi esse jogo, ouvindo o Ronca Ronca (é verdade), que nesse dia, contava com a participação de Marcelo Yuka, ainda no Rappa.
    Compartilho de sua desilusão com os canarinhos. Além do Uruguai, torcerei para a Espanha e a Holanda, mas se der Inglaterra x Argentina, na final, vai ser a melhor final de todos os tempos.

  8. Alexandre N. disse:

    Falklands x Malvinas? Cooool! rsrsrsrsrs…

  9. Leon disse:

    Bom dia moçada!
    Obrigado pela gentileza em ler e comentar.
    Zarko, Maraca lotado contra o Equador foi algo em torno de 70 mil. Nada parecido com o impacto que mais de 100 mil causavam. E o Equador, bem, é o equador né?
    Nardoni e Claudio: o Raí foi um grande jogador. No São Paulo e no Paris Saint-Germain. Na seleção ele sempre foi um lixo. O mesmo se aplica ao pé-frio, maior jogador da história do coisa ruim, mas sempre inútil e/ou lazarento ao vestir a amarela.
    Por outro lado, Taffarel papava frangos homéricos pelos clubes que defendeu e era aquela gigante nos jogos do Brasil. Hoje ninguém mais fala nisso, mas sempre há casos de um e outro exemplo. Acho que deveria ser levado em consideração.

  10. Alexandre N. disse:

    Até as eliminatórias, o Raí vinha jogando bem. Veio o jogo de estréia contra a Rússia (se não me falha a memória) e ele também foi muito bem. E depois deste jogo que o rendimento dele caiu muito.

  11. Raphael Zarko disse:

    Aí, Leon, é culpa do Maracanã e das exigências da Fifa que diminuíram o ex-Maior do Mundo.

    Taffarel teve uma fase muito ruim na seleção. No Inter era um monstro. No Parma deve ter começado bem, porque só deixou de ser titular depois de um bom tempo, fase em que ele estava mal na seleção. No Galo, fim de carreira, sinceramente não acompanhei.

  12. Alexandre N. disse:

    Mesmo no Galo em fim de carreira ele foi muito bem. Começou mal, pois tinha chegado bem fora de forma. Mas depois fechou o gol.

  13. rafael botafoguense disse:

    em 2008 eu fugi pra ver o brasil tomar um sacode dos argentos nas olímpiadas…merda!

  14. Victor disse:

    O melhor daquele jogo foi a guerra de garrafas de plástico antes da partida.
    O resto foi um saco.

    ****
    Irritante Taffarel no Galo. O jogo que resolveu mostrar porque era goleiro de Seleção foi justamente contra a draga do Fluminense.

  15. zobaran disse:

    Eu ia fazer o comentário do Victor.

    A galera chegou muito cedo para o jogo e fazia bastante calor. Garrafinhas de plástico bombando. Até que alguém joga uma em algué, outro devolve, cidadão aproveita e joga mais uma e quando você vê tem garrafinha de tudo quanto é lado. De longa parecia até que você tava vendo chafariz. Uma experiência idiota e muito maneira.

    Tirando isso, foi também a primeira vez que eu puxei um grito. Estavámos todos esprimidos, esperando para entrar, sendo pisoteado pelos cavalos da polícia e lá em cima daquele arco maluco em frente à entrada do Bellini, dois malucos aparecem e comecam a pular acenando com a mão. “Viado, viado” todos gritavam, enquanto eu, solitário e do alto dos meus 14 anos recém completos canto “ÊeêÊ Tem um viado querendo aparecer”. Em poucos segundos, todos já estavam etoando tão original canção.

    Mas bom mesmo II – A missão foi a invenção do “Ei, Cafú, vai tomar no …”, “Raí pede para sair” e “Ah… é Edmundo” cada vez que o roupeiro se movia…

  16. Macedus (esperando um time) disse:

    Pessoas, em relação a isto de atirar garrafinhas de plastico em alguém durante eventos de grande porte o Alexandre é conhecedor de causa.

    Né ordinário !!!

  17. rafael botafoguense disse:

    olha q narrador fdp! hahaah…aos 33 seg. ele solta um “HA-HA-HA..ME RÍO DE JANEIRO”

    nem com vídeo lembro desse jogo…

    VAI TOMÁ NO CU HIPOCAMPO!

  18. Felipe Tartari disse:

    assassino de aula?

    caramba… me achava no máximo um matadorzinho de aluguel…

  19. Alexandre N. disse:

    Sobre este fato das garrafinhas, a culpa não foi (de todo) minha. Foi tudo culpa da mardita! rrsrsrsrsrssrs…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s