O Celso vai te comprar

por Luciano Mello*

A notícia saiu no fim do ano, naquela semana entre Natal e Ano Novo na qual muitas pessoas ficam fora de órbita durante sete dias em sequência. Mas não se tratava da ressaca de um leitor desatento, e estava no jornal “The Guardian”, que merece bastante respeito. O Brasil se tornou em 2011 a sexta maior economia do mundo. Para quem considerou absurda a novidade, eu recomendo que observe com cuidado o trabalho de um empresário carioca que intriga até potências mundiais de sua área. Não, não é o Eike Batista. Na realidade, o personagem em questão fez faculdade de Medicina e, talvez entediado ou indignado, decidiu tirar seu clube do coração das profundezas da Série C em 1999. Treze anos depois, ele alcançou o auge. A não ser que algum time contrate o Messi até o dia 31, a janela de transferências de janeiro de 2012 tem um vencedor incontestável no futebol brasileiro: Celso Corrêa de Barros (e ainda há quem ache, como meu editor Raphael Zarko no texto do dia 17 deste blog, que o “dotô” tem menos influência do que o Ronaldinho Gaúcho, cujo principal feito recente foi realizar no Big Brother do Luxemburgo peripécias semelhantes àquelas consagradas por seu conterrâneo Renato).

Ao longo da trajetória de Celso Barros no comando do Fluminense (ah, então você achava que era o presidente quem mandava no clube?), há uma característica clara: ele é movido a obsessões. O pediatra-cartola só sossega quando realiza seus desejos. O primeiro deles foi um jogador: Romário (bem mais tarde, o nível de exigência caiu e o holofote se voltou para Leandro Amaral). Depois, um treinador em especial virou fetiche do Senhor Unimed: Renato Gaúcho (o cara está desempregado há meses e já ganhou duas citações aqui. Tiro meu chapéu para ele). Nos últimos dois anos, um diretor passou a substituir os planos de saúde nos sonhos do patrono: Rodrigo Caetano.

Aqui chegamos à primeira realização do mecenas tricolor em 2012: a contratação do dirigente que virou ídolo no Vasco. Mas Celso leva uma vantagem sobre seu novo funcionário: Rodrigo nunca teve seu rosto imortalizado numa bandeira, ao contrário do presidente da Unimed, que já ganhou tal homenagem dos tricolores. Depois de um excelente ano em São Januário, o diretor decidiu pedir demissão e fez mistério durante três semanas até anunciar o que todo mundo já sabia: seu destino era o Fluminense, mesmo sem a ciência do presidente Peter Siemsen, que dias antes deixara claro quem dá as ordens nas Laranjeiras: “Quem tem interesse no Rodrigo Caetano é a Unimed” (e pensar que muitos tricolores pensaram que o novo dirigente seria mais independente do patrocinador… Peter já empregou o filho de Celso no departamento médico do clube e ainda acho que futuramente ele vai repetir Horcades com lágrimas de agradecimento ao pediatra durante a apresentação de um jogador).

Mesmo os vascaínos mais radicais ficaram irritados com a saída de Rodrigo durante apenas dez dias. Até eles sorriram com a segunda estocada do doutor Celso num rival que disputará a Libertadores deste ano. Desde julho de 2008, quando a ponta dos dedos de Cevallos na prorrogação impediu que ele virasse estátua nas Laranjeiras, Thiago Neves ganhou lugar especial no coração do pediatra mais famoso do Brasil. Nem sua passagem apagada pelo Tricolor em 2009 diminuiu a admiração. Ao perceber que o Flamengo não tem a Amil ou a Golden Cross para colocar dinheiro no clube, o patrono decidiu levar o jogador de volta ao Tricolor. Comenta-se que a mulher de Thiago, torcedora do Flu, foi decisiva para o acerto. Segundo essa versão, o salário de R$ 700 mil mensais oferecido por Celso Barros teria sido um mero detalhe na negociação.

Se você chegou até aqui neste texto, talvez tenha esquecido, mas, lá nas primeiras linhas, citei que o Brasil se tornou a sexta maior economia do mundo. Bom, pelas minhas contas (extraoficiais, claro), o Fluminense caminha, com amor e com vigor, para entrar na seleta lista dos dez clubes com maior folha salarial do planeta. Com apenas três jogadores – Fred, Deco e Thiago Neves –, o clube (no caso, a Unimed) gasta R$ 2,2 milhões por mês. Só o diretor de futebol ganha mais de R$ 250 mil. Abel não saiu dos Emirados Árabes para receber menos de R$ 500 mil. Assim, mesmo com os exorbitantes vencimentos de Neymar e Ronaldinho em seus clubes, o Tricolor não tem concorrentes no Brasil. Fora daqui, quem gasta mais de R$ 8,5 milhões (ou 3,7 milhões de euros) por mês? De cara, eu diria Manchester City, Manchester United, Chelsea, Liverpool, Arsenal, Barcelona, Real Madrid, Inter de Milão, Milan e Bayern de Munique. Depois, vêm algumas dúvidas: Anzhi? Guangzhou? Shakhtar Donetsk? Mais algum inglês contando com a força da libra?

O desafio está lançado. Eike Batista chegará ao topo da lista de homens mais ricos do mundo antes ou depois de o Fluminense alcançar o primeiro lugar na relação das maiores folhas salarias do planeta? Eu coloco as minhas fichas no doutor Celso. E o Barcelona que trate de segurar o Messi.

*Luciano é jornalista e conhecido de longa data do Yougol.

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