É de Moça Bonita, de Potosí e de pipoca que o povo gosta

por Raphael Zarko*
Nada mais sonso do que fingir que não está secando no futebol. Não interessa o adversário. E, aí é que está a coisa toda, quanto pior, melhor. Claro que é mais difícil você ser feliz com a desgraça rubro-negra quando o Real Potosí é o rival e tem um jogador a menos quando precisa de um golzinho para a secada violenta. Mas o que vale é o espírito de porco esportivo.O jogo em Moça Bonita era bom? Não, de bom apenas o clima nostálgico, as lembranças de um passado que vários jovens torcedores e profissionais ali não conheceram. As faixas lembravam: “Os Castores”, “Nada tememos, somos banguenses” e “1960”. Por que 1960?Por que somos assim? Torcemos para que nossos amigos se ferrem para a gente mandar aquela mensagem de celular com poucas palavras e muita sacanagem: “Chupa”, dizem os paulistas, “chupa”, dizem uns cariocas, “créu”, dizem outros, e “se fudeu”, resumem grosseira e sinceramente um torcedor que vê TV e quer mais que essa minha frase rime.O Flamengo começou o jogo massacrando. Não olhava para a TV – até porque dou sorte quando seco o Flamengo -, mas sabia que Botinelli, Ronaldinho e Léo Moura, o verdadeiro R10 desse time, criavam chances contra o modestamente poderoso Toposí, time de infância daquele cantor francês que nunca mais ouvi falar.

E para quem nunca tinha ouvido falar que o Campeonato Carioca era o mais charmoso do Brasil, encontrei nas mesmas cadeiras quentes do estádio Proletário Paulinho Mocidade (dublê de Michael Keaton, do grito “a hora é essaaaaa” e vascaíno) e Fernando Prass com o filho. Finalmente, Prass não estava em campo. E nem assim ele largou o futebol.

Larguei de mão a secação quando já estava em casa, após aniquilar seis almondêgas e dois frangos à milanesa e muito antes do Vanderlei Luxemburgo negar que esteja de saída do Flamengo. Luxa não reclamou das notícias. Foi sóbrio que nem ele deve ter se reconhecido. Era como se tivesse um terceiro personagem. Havia o Wanderley, tem o Vanderlei, ontem apareceu o Wanderlei, mesclado de libertinação e projetos superfarturados.Fora de campo, a massa se acalmava. Não eram os rubro-negros, mas os banguenses vascaínos. Esses são aqueles únicos que conseguiram chegar às 17 horas para ver Bangu x Vasco, em Moça Bonita. A sacanagem mesmo foi que muitos deles, calculei uns mil vascaínos, outros curiosos, tinham ingresso e ficaram de fora das arquibancadas que viu Mauro Galvão, Macula e Marinho. Os três “emes” que embaralhados viram quase meses, dois, mais precisamente, que o Flamengo demorou para entrar definitivamente na Libertadores.Deixou chegar… Foi o que pensou um senhor, vendedor de pipocas, na porta do estádio Proletário. Ele não viu confusão, nada de latinha na cabeça de torcedor, gás de pimenta, que parou dentro do campo e fez o atacante do Bangu ter um piripaque à la dança dos famosos no centro do campo. “Cheguei só agora, não vi nada”, me disse ele. Com todo respeito, eu, que tinha saído do estádio para saber o que tinha acontecido para tanta confusão, fiquei com o salsichão na mão e uma cerveja na outra. Com muito sacrifício e suor, voltei para dentro de Moça Bonita. E assim acabou uma noite no futebol carioca.

*Fotos gentilmente cedidas por Bruno Braz.
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Uma resposta para É de Moça Bonita, de Potosí e de pipoca que o povo gosta

  1. Alexandre N. disse:

    Estádio Proletário: O Melhor estádio ruim do RJ. rs…

    Gosto muito de lá. E não só por morar a dez minutos de caminhada de lá. Se eu soubesse que você ia, levava a patroa (vascaína) pra assistir o jogo e te pagava uma cerveja. hehehehehe

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